Segundo The New York Times Adam Back é Satoshi Nakamoto

Um dos assuntos mais intrigantes do universo das criptomoedas, dos mais abordados e debatidos sem sombra de dúvidas, gira em torno da real identidade do criador (ou seria dos criadores?) do Bitcoin, já imortalizado pelo pseudônimo Satoshi Nakamoto. Aqui mesmo neste site já fizemos diversas postagens sobre este assunto. Ao longo dos últimos anos algumas pessoas se apresentaram como sendo o verdadeiro Satoshi. Nos últimos anos o candidato mais barulhento aparentemente foi o cientista da computação australiano Craig Wright que alegava ser o autor do white paper do Bitcoin. A tentativa de Craig de provar que era o Satoshi da vida real foi parar nos tribunais, especificamente nos tribunais do Reino Unido. Craig entrou com vários processos judiciais contra empresas e pessoas alegando ter direitos de propriedade intelectual sobre o white paper, sobre o Blockchain e praticamente sobre tudo relacionado ao Bitcoin. Uma entidade sem fins lucrativos chamada COPA – Crypto Open Patent Alliance (entidade sem fins lucrativos formado por pessoas e empresas com objetivo de incentivar a adoção e o avanço das tecnologias livres de licença que surgiram com as criptomoedas para estimular o crescimento e a inovação das criptos) resolveu entrar na briga e abriu um processo contra Craig com objetivo de acabar com a série de ameaças e processos movidos por Craig. No início do ano de 2024 um Tribunal Superior declarou em sentença no processo movido pela COPA que Craig não era Satoshi. Craig recorreu e no final do ano de 2024 um Tribunal de Apelação rejeitou o recurso de Craig. Com o aparecimento de candidatos a Satoshi um termo foi criado para designar estes supostos Satoshis que são conhecidos na comunidade como Faketoshi. Para quem tiver mais curiosidade a respeito desta batalha judicial um local para entender um pouco mais a fundo o tema é o artigo The COPA x Wright Trilogy: English High” publicado no blog The Barrister Group assinado por Brian Sanya Mandah (link no final do texto).

Segundo um extenso artigo que tem o título no original de My Quest to Solve Bitcoin’s Great Mystery, em tradução livre “Minha Busca para Desvendar o Grande Mistério do Bitcoin” publicado no dia 08 de abril de 2026 no site do jornal The New York Times (link no final do texto) assinado pelo repórter John Carreyrou e pelo editor Dylan Freedman por trás do pseudônimo Satoshi Nakamoto estaria o cientista da computação e criptógrafo de origem britânica Adam Back. O repórter chegou ao nome de Adam Back partindo de uma lista com 652 nomes de supostos Satoshis. Alguns nomes bastante conhecidos da comunidade cripto já apareceram por aqui, como por exemplo Len Sassaman, Hal Finney, Timothy May, Wei Dai e Nick Szabo. O nome de Adam Back sempre esteve entre os cotados como sendo o provável Satoshi. Eu mesmo, se ameaçado de morte e tendo que escolher um candidato, teria Back como um dos mais possíveis na lista de chutes. O artigo é bem extenso, praticamente um livro com mais de 30 páginas dividido em capítulos. Para não termos problemas legais vamos trazer apenas um breve resumo de cada capítulo deixando link para o artigo completo (em inglês) no final da postagem para quem se interessar. Os capítulos do artigo são os que seguem abaixo e servirá também como nosso guia para nossos breves e rasos comentários capítulo por capítulo.

I. A Series of Clues - Two Thin Leads (Uma Série de Pistas – Duas Pistas Próximas)

‘Down the Cryptography Rabbit Hole’ (‘Descendo até a Toca do Coelho da Criptografia’)

Becoming a Cypherpunk (Tornando-se um Cypherpunk)

A Gold Nugget (Uma Pepita de Ouro)

Spam on the Brain (Spam na Mente)

Mr. Average (O Sr. Mediano)

Napster vs. Gnutella (Napster vs Gnutella)

II. Buried Road Map - Outlining Bitcoin a Decade Before Bitcoin (Mapa Oculto – Esboçando o Bitcoin uma Década Antes do Bitcoin )

Radio Silence (Silêncio no Rádio)

Satoshi Appears, Mr. Back Disappears (Satoshi Aparece, o Sr. Back Desapace r e)

Suddenly All In (De Repente, Tudo ou Nada)

III. Closing In - Alternative Theories (Aproximando-se – Teorias Alternativas)

‘Better With Code Than With Words’ (‘Melhor com Códigos do que com Palavras’)

Spelling and Grammar (Ortografia e Gramát i ca)

From 34,000 Down to One (De 34.000 para Um)

IV. Confrontation - El Salvador (Confronto – El Salvador)

Links:

Link para o artigo completo em inglês:

https://www.nytimes.com/2026/04/08/business/bitcoin-satoshi-nakamoto-identity-adam-back.html

Artigo publicado no Infomoney:

https://www.infomoney.com.br/mundo/nyt-afirma-ter-descoberto-o-criador-do-bitcoin-apos-um-ano-de-investigacao/

Artigos sobre a disputa COPA x Craig Wright

https://thebarristergroup.co.uk/blog/the-copa-v-wright-trilogy

https://www.infomoney.com.br/business/autoproclamado-inventor-do-bitcoin-e-condenado-por-abrir-acao-de-r-7-trilhoes/

https://br.tradingview.com/news/cointelegraph:d982b5393bc81:0/

Continua…

Na parte inicial do texto o autor explica o motivo da busca pela identidade verdadeira de Satoshi Nakamoto. O ponto de partida foi em 2024 enquanto ouvia um podcast chamado Hard Fork do New York Times que falava sobre um documentário da HBO (em 2024, no Brasil o canal usava o nome de Max) que afirmava ter descoberto quem era Satoshi Nakamoto. O nome original do documentário é Money Eletric: the Bictoin Mystery (título em português: Moeda Digital: O Mistério do Bitcoin) lançado em outubro de 2024 e que apontou o desenvolvedor Canadense Peter Todd como sendo Satoshi Nakamoto. Já postamos aqui sobre o documentário na época do lançamento. A identidade real de Satoshi, como para a grande maioria dos fãs do Bitcoin, é um grande mistério. O próprio autor já tinha se aventurado antes na busca pela identidade de Satoshi, mas acabou desistindo e ao ver alguém dizendo que tinha encontrado o Satoshi verdadeiro a curiosidade bateu forte. O autor até reconhece que o documentário traz uma visão panorâmica interessante sobre o universo das criptomoedas. No entanto, a conclusão que aponta para o desenvolvedor Canadense não convenceu por falta de evidências mais embasadas, na visão do autor. O que chamou a atenção de John Carreyrou a ponto de partir para uma pesquisa mais profunda que resultou no texto que estamos comentando foi notar que Adam Back não estava à vontade nas imagens do documentário. Olhos evasivos, risada forçada e movimento brusco da mão esquerda chamaram a atenção de John Carreyrou que reviu a cena diversas vezes.

Muitos nomes já foram ventilados e várias pessoas tentaram identificar Satoshi. A grande maioria se debruçou sobre o material que sabidamente foi deixado por Satoshi. Apesar de manter-se bem oculto até agora Satoshi deixou muitos textos incluindo o próprio white paper, e-mails e postagens no fórum Bitcointalk. Ao longo do tempo praticamente todos que se esforçaram para indicar um ou outro nome da vida real como sendo o verdadeiro Satoshi não conseguiram apresentar a evidência matadora. O que se sabe com certeza é que Satoshi era uma espécie de libertário (antigoverno), tinha razoável conhecimento de programação e conjugava bem esse conhecimento com outros conceitos utilizados na criação do Bitcoin em áreas como economia, matemática e criptografia, mesmo não sendo um grande especialista em cada uma dessa áreas. Outro detalhe, caso ele ainda esteja vivo (há dúvidas sobre isso), é um dos grandes bilionários da face da terra.

O mistério persiste desde que o Bitcoin foi lançado, cerca de 16 anos atrás. E John Carreyrou que já tinha começado uma pesquisa sobre o assunto resolveu enfrentar o tema. E para isso John Carreyrou escolheu um nome desde o início e saiu atrás das tais evidências que comprovariam a sua escolha por Adam Back. O que vem a seguir é esta história, que vamos comentar em capítulos.

O link para o texto completo (no original) está disponível na primeira postagem.

Link onde existe bastante material sobre Satoshi incluindo postagens, e-mails originais.

Algumas postagens sobre Satoshi que já fizemos por aqui:

https://tribocrypto.com/t/quem-e-satoshi-nakamoto-documentario-hbo-2024/1885

https://tribocrypto.com/t/o-mundo-pequeno-que-cerca-o-nascimento-do-bitcoin/1390

https://tribocrypto.com/t/por-onde-anda-o-criador-do-bitcoin-satoshi-nakamoto/675

I – Uma Série de Pistas - Duas Pistas Próximas

John Carreyrou sabia que existiam dezenas de possíveis candidatos citados desde que o Bitcoin foi lançado. O primeiro passo foi encontrar um jeito de dar uma boa peneirada para afunilar a pesquisa.

Um fato que chamou a atenção de John Carreyrou foi a mistura do inglês britânico com o americano nos e-mails e postagens assinados por Satoshi Nakamoto. Já tratamos deste aspecto em particular por aqui em outra postagem que discutiu a possibilidade de Satoshi ser um cidadão britânico. Um dos argumentos mais citados pelos defensores da tese que coloca Satoshi como britânico é a inclusão de uma manchete da edição impressa na Inglaterra do jornal The Times do dia 03/01/2009 que transcrevemos no original: “Chancellor on brink of second bailout for banks”, em tradução livre seria algo como “Ministro da Fazenda está prestes a salvar bancos pela segunda vez”.

Outro fator que a grande maioria dos curiosos a respeito da identidade de Satoshi concorda é a grande possibilidade Satoshi ser membro de um grupo de anarquistas formado no começo dos anos 90, os Cypherpunks. Como anarquistas (anti-governos) um dos principais, senão o principal objetivo do grupo era se proteger da vigilância dos governos e dos respectivos riscos inerentes ao fato de serem contra governos. A principal forma de comunicação desse grupo, lembrando que o grupo nasceu no início dos anos 90, era através de troca de e-mails que eram copiados para uma grande lista de destinatários que respondiam para todos. Era algo mais ou menos parecido com o que os atuais grupos de “zap” (Whatsapp) trocando mensagens criptografadas. Também já tratamos deste tema por aqui.

Quem usa dinheiro físico (ou vivo) representado por cédulas de papel impressas pela Casa da Moeda não faz a mínima ideia de onde ela veio e por quantas mãos vai circular ao longo do tempo. Dinheiro vivo basicamente não pode ser rastreado. Qualquer pagamento feito por meio de algum sistema digital deixa rastros, entre outros motivos porque os governos criam regras sobre guarda das movimentações feitas pelos clientes dos bancos, das empresas de cartões, etc. Um tema debatido dentro da comunidade dos Cypherpunks era a criação de uma forma de pagamento que não poderia ser rastreado tal como ocorre com o dinheiro físico. Como provável participante do grupo Satoshi teria criado uma lista apartada dentro do grupo principal que chamou de Cryptography list (lista ou grupo de criptografia). Ao menos duas pessoas desta lista específica supostamente eram conhecidas por Satoshi.

John Carreyrou examinou atentamente diversos textos atribuídos a Satoshi, principalmente os e-mails e criou uma lista de palavras e frases que chamaram sua atenção. Um exemplo é o uso da palavra tipicamente americana “dang” (usado para ofender sem ser muito pesado), uma espécie de palavrão suavizado que vem da palavra “damn” (droga, caramba). Outro uso curioso foi da palavra “backup” escrito junto e usado num texto como verbo. Como verbo a forma gramatical correta seria “back up” escrito separadamente. “Backup” escrito junto é usado como adjetivo ou substantivo. Com base neste tipo de detalhe e na lista de palavras pescadas nos textos pesquisados o jornalista concluiu que a escrita de Satoshi era uma estranha combinação de britânico da alta sociedade, caipira americano, nerd de computador e criptógrafo. A partir daí John Carreyrou cruzou as mais de cem palavras que tinha separado com postagens no antigo twitter, atual “X”. Certamente nem todos os supostos Satoshis tem conta no “X” e também não foi usado nenhum critério científico. Mesmo assim o cruzamento entre as palavras separadas por John Carreyrou e mensagens escritas por supostos Satoshis no “X” deu resultado, um usuário em especial usava quase todas as palavras listadas pelo jornalista: o usuário Adam Back.

Outros detalhes que aguçaram a curiosidade do jornalista sobre Adam Back: ele era britânico, era membro do grupo Cypherpunk e havia criado o Hashcash, que foi usado por Satoshi para criar o Bitcoin, ganhando inclusive citação do Satoshi no whitepaper do Bitcoin. Durante o rumoroso julgamento nos tribunais britânicos sobre a identidade de Satoshi onde o criptógrafo australiano Craig Wright alegava ser Satoshi um documento foi apresentado por Adam Back como prova, era um e-mail enviado pelo usuário Satoshi datado de agosto de 2008 para Adam Back, antes da publicação do whitepaper em 31/10/2008. Em tese este e-mail comprovaria que Adam e Satoshi não eram a mesma pessoa.

Para John Carreyrou, no entanto, Adam pode ter enviado o e-mail para si mesmo como uma espécie de cobertura para disfarçar sua identidade real.

Links:

Descendo até a toca do coelho da criptografia

Tendo escolhido Adam Back como Satoshi Nakamoto o jornalista John Carreyrou partiu atrás de Back para encontra-lo pessoalmente sob o pretexto de fazer uma entrevista. Isso ocorreu em 2025 nos EUA durante um evento conhecido como Bitcoin 2025. Mesmo tendo decidido que Back era Satoshi o objetivo inicial era apenas o de conhecê-lo e pescar a maior quantidade de informações possíveis sem despertar maiores suspeitas sobre seu objetivo principal. Um eventual encontro para tentar obter algum tipo de confirmação objetiva ficaria para o final da reportagem.

Na definição de John Carreyrou o criptógrafo Adam Back tinha a aparência de um matemático desleixado com óculos de aro de metal, paciente, amigável, de voz suave, que não tomava precauções visíveis com sua segurança sendo talvez uma das pessoas mais ricas do mundo, de cabelos grisalhos ralos e cavanhaque, resumindo um nerd de meia idade.

A conversa fluiu bem quando a conversa girou em torno do Bitcoin. Com relação a vida pessoal já foi mais difícil arrancar detalhes a partir da infância. Além do fato de Back ter nascido em Londres nos anos 70 o jornalista conseguiu obter algumas informações importantes para embasar sua teoria: Interesse por criptografia desde a infância, em especial no PGP (Pretty Good Privacy); redes de computadores distribuídos e conectados por meio de “nós”; linguagem C++. De uma forma ou de outra todos os interesses citados estiveram presentes na construção inicial do Bitcoin.

Tornando-se um Cypherpunk

Adam Back entrou para um fórum criado pelos cypherpunks por volta de 1995, pouco tempo depois do término da pós-graduação. Logo se tornou um dos usuários mais ativos da comunidade. Numa das primeiras postagens Adam Back solucionou um desafio criptográfico postado por Hal Finney (Harold Thomas Finney foi um programador, criptógrafo e cientista da computação americano que faleceu em 28/08/2014 e faz parte da lista de supostos Satoshis). Entre outras coisas Finney foi o destinatário da primeira transação conhecida de bitcoin enviada por Satoshi Nakamoto para testar o funcionamento do sistema.

Back e Finney se tornaram próximos. Em dezembro de 2010 Finney fez uma postagem no fórum Bitcointalk elogiando o código do Bitcoin e cerca de duas horas depois Satoshi respondeu agradecendo a Finney pelo elogio.

Finney havia criado um sistema de dinheiro eletrônico que batizou de R.P.O.W. (Reusable Proofs of Work) em tradução livre “Prova de Trabalho Reutilizável”. Este sistema incorporava o Hashcash (algoritmo ou sistema de prova de trabalho criado por Adam Back em 1997). Talvez por causa disso Adam Back foi uma das pessoas que chegaram a falar sobre o sistema criado por Finney nas listas de discussões dos Cypherpunks e dos Criptógrafos.

Links:

Uma Pepita de Ouro

Para o jornalista John Carreyrou a figura obcecada por privacidade de Adam Back se sentiu em casa entre os Cypherpunks, nas palavras dele Back teria encontrado suas almas gêmeas”. Na linha do tempo isso ocorreu por volta de 1995, nos tempos da internet discada e ao contrário de Back a maioria dos outros membros do grupo eram americanos. Foi nessa época que Back abraçou a criptoanarquia, uma ideologia que muitos cypherpunks idolatravam, que defendia o uso da criptografia para se proteger do Estado. Esse apego de Back pelo libertarismo fez com que Back ficasse profundamente irritado com o governo Clinton que abriu investigação criminal contra o criador do PGP (Pretty Good Privacy) que foi lançado gratuitamente pelo seu criador Philip R. Zimmermann, um cientista da computação e criptógrafo americano. Como protesto Back estampou camisetas com algoritmo de criptografia e os distribuiu para outros membros do grupo. John Carreyrou viu semelhança entre esse protesto codificado numa camiseta e a inserção da manchete do Times de Londres no primeiro bloco de transações do Bitcoin. O jornalista cita também outro protesto cifrado publicado por Back, segundo Satoshi sua data de nascimento seria 5 de abril de 1975. A data e o mês correspondem a data em que o presidente dos EUA Roosevelt proibiu a posse privada de ouro em 1933 e o ano de 1975 foi o ano em que a proibição acabou. Para muitos entusiastas o Bitcoin é equivalente ao ouro, em formato digital, que não pode ser proibido e principalmente desvalorizado.

Spam na Mente

Outra coincidência que John Carreyrou encontrou entre Satoshi e Back era o incomodo com spam. Em certo momento da vida Back foi administrador de um serviço que removia dados de identificação nos e-mails antes deles serem reencaminhados, permitindo que os usuários ficassem anônimos. Apesar das intenções libertárias de Back essa funcionalidade passou a ser usada pelos spammers que enchiam as caixas de e-mails com lixo eletrônico. Isso levou Back a criar o Hashcash que foi lançado em 1997. Em resumo o Hashcash exigia a resolução de pequenos cálculos matemáticos que qualquer PC resolvia em poucos segundos, mas para os spammers que disparavam muitos e-mails de uma vez a tarefa se tornava muito mais trabalhosa e demorada. John Carreyrou encontrou a palavra spam em pelo menos 24 textos de Satoshi expressando pontos de vista bastante parecidos. Ainda na linha de ideias semelhantes entre Back e Satoshi, alguns meses após o lançamento do Hashcash Back defendeu entre os Cypherpunks que sua criação poderia ser útil para quem recebia muitos e-mails e poderia filtrar as mensagens indesejadas sem expor seus dados para qualquer um. Logo após o lançamento do Bitcoin Satoshi defendeu um novo propósito para o exército de computadores zumbis que eram controlados pelos spammers para inundar as caixas de e-mails com spam, a mineração de bitcoins. Quatro anos depois num comentário feito por Adam Back no fórum Bitcointalk consta o seguinte trecho, em tradução livre: “Talvez o spam até diminuía se a mineração de CPU/GPU se torne um mercado mais lucrativo do que disparar muitos spam, acho muito provável que seja. No original em inglês: “Maybe spam would even fall if Hashcash CPU/GPU mining is a more profitable market than spamming. It seems to me highly likely that it would be”.

O Sr. Mediano (Um Homem Comum)

A tarefa de identificar Satoshi não estava sendo fácil para John Carreyrou. O jornalista sabia que a comunidade dava como certo que Satoshi aparentemente tinha cometido dois erros muito citados. O lançamento do Bitcoin teria sido feito a partir de um endereço IP localizado na região sul da Califórnia, nos EUA, e um dos e-mails de Satoshi teria sofrido um ataque hacker. Para o jornalista talvez esses erros não tenham sido exatamente erros.

Enquanto avançava nas pesquisas para esta matéria o jornalista notou que Adam Back usava e abusava de pseudônimos, ele gostava de navegar na internet da forma mais anônima possível e bem longe da vigilância dos governos. Este era um ponto que ele tinha em comum com Satoshi. Em tradução livre, um texto de Back datado de 1998 dizia o seguinte: “Você precisa estar longe dos radares, precisa ser essencialmente invisível para os governos, ser um homem comum para eventuais dossiês de serviços de espionagem, um inocente homem comum. Daí surge a necessidade de ter um ou mais alter egos para seus interesses reais”. No original em inglês: “You must be below the radar belt, you must be essentially invisible to the government, the spooks dossier on you must read Mr Average and be entirely wholesome. Then you must have one or more alter-egos, for your real interests”.

Em 1997 Back se interessou por uma lista de remailer (sistema de reenvio de e-mails com objetivo de mascarar o remetente original) criado por um cypherpunk japonês, a ponto de parabenizar o autor e fazer algumas perguntas sobre possíveis diferenças entre a legislação japonesa e americana. Para Back a conversa com o cypherpunk japonês acabou por ali, sem resposta da outra parte. Por outro lado, Satoshi Nakamoto registrou o site bitcoin-org e criou duas contas de e-mail não rastreáveis usando serviço de uma empresa com sede em Tóquio chamada Anonymousspeech L.L.C.que oferecia serviços de hospedagem na web e endereços de e-mail não rastreáveis.

Dois anos depois, em 1999 Back mudou-se para o Canadá indo morar em Montreal para trabalhar numa startup local focada em privacidade, onde contribuiu para o projeto de criação de um sistema de privacidade batizado de Freedom Network. Era um sistema baseado em redes que tinha como objetivo evitar monitoramento das navegações realizadas por seus usuários. Esse projeto que permitia navegação anônima na internet foi precursor do Onion Router, que é mais conhecido pela sigla TOR. Segundo opinião corrente dentro da comunidade, Satoshi teria usado o TOR para ocultar suas pegadas, por exemplo ao realizar postagens no fórum Bitcointalk.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tor_ (rede_de_anonimato)

Napster vs. Gnutella

Depois de alguns meses mergulhado na tarefa de comprovar que Adam Back é Satoshi Nakamoto o jornalista sentiu que estava seguindo pistas falsas e entrando em becos sem saída. Nessas idas e vindas ele percebeu que Back e Satoshi tinham aversão a direitos autorais. Em tradução livre Back teria escrito a seguinte frase em setembro de 1997: “Acabem com as patentes e os direitos autorais”. O sistema antispam Hashcash que Back criou foi lançado com código aberto. Já Satoshi Nakamoto colocou isso literalmente em prática ao lançar o Bitcoin com código aberto sem qualquer restrição. Ambos também criaram listas de discussão na internet onde os demais usuários poderiam propor correções, atualizações e melhorias com formatos e estilos bastante parecidos. O logotipo do Bitcoin que Satoshi criou também não tem direitos autorais.

Essa questão dos direitos autorais ganhou tração dentro da comunidade no início dos anos 2000 com a desativação do Napster que tomou um processo gigantesco movido pelas gravadoras. A base de funcionamento do Napster era o compartilhamento de conteúdo diretamente entre os próprios usuários sem depender de um servidor central, ou seja, funcionava no sistema de rede ponto a ponto. Nessa época Back compartilhou entre os Cypherpunks um artigo escrito por um advogado especializado em propriedade intelectual listando todos os riscos que os criadores de software baseados em redes P2P estariam submetidos. E nas palavras de Back a forma mais segura e simples de continuar criando softwares que utilizam redes P2P seria o criador ficar anônimo. Nessa linha o Bitcoin, tal como era o Napters, funciona baseado em rede P2P e no lugar das gravadoras entram os governos com suas moedas podendo ser substituídas por dinheiro digital que não poderia ser controlado. O risco era potencialmente muito maior se a identidade do criador do Bitcoin se tornasse pública e isso explicaria por que a real identidade de Satoshi Nakamoto não é conhecido. Enquanto as gravadoras tinham interesses comerciais os governos têm outros interesses, numa escala muito maior, ainda mais se considerarmos o poder que está por trás do processo de emissão e gestão da circulação das moedas oficiais. Para Adam Back o que tinha ocorrido com o Napster tinha sido uma espécie de aviso. Embora o sistema de funcionamento do Napster estivesse baseado na rede P2P eles mantinham um servidor central onde armazenavam um ranking com os usuários que tinham maior quantidade de músicas.

Cerca de um ano após o surgimento do Napster nasceu outro projeto de troca de músicas via rede P2P, neste caso tivemos um projeto “raiz”, funcionando através da interligação de computadores independentes espalhados pela internet sem nenhuma ligação com algum tipo de servidor centralizado, tal como foi feito na criação do Bitcoin.

Essa diferença fundamental entre o formato de funcionamento do Napster e do Gnutella não passou despercebido para Back que comparou os dois sistemas pelo menos três vezes em listas diferentes de discussão dos Cypherpunks. Mesmo funcionando via rede P2P o Napster estava linkado com um servidor centralizado enquanto o Gnutella nasceu sem nenhuma ligação com um servidor centralizado, tal como ocorreu posteriormente com a criação do sistema do Bitcoin, totalmente descentralizado.

II – Roteiro Oculto

Esboçando o Bitcoin uma Década Antes do Bitcoin

Até esta altura o jornalista tinha descoberto vários aspectos similares entre Satoshi Nakamoto e Adam Back mas, ainda não tinha nada que ligava diretamente Back com o Bitcoin. As coisas começaram a mudar quando o jornalista trombou com uma série de postagens de Back feitas entre 1997 e 1999, uma década antes do surgimento do Bitcoin (2009).

Aqui as coisas começam a ficar interessantes. Conforme montagem de nossa autoria, copiamos parte da postagem que está disponível no site cryptoanarchy (link no final da postagem). Back lista alguns atributos que seriam o pilar para a existência de um sistema bancário totalmente virtual (eletrônico) sem conexão com o sistema bancário tradicional. Da lista de 6 requisitos citados na mensagem o jornalista destacou os quatro primeiros: 1) privacidade das partes de uma transação (remetente e recebedor); 2) funcionamento numa rede distribuída para dificultar o fechamento; 2) ter algum mecanismo controlando a escassez embutido dentro do próprio sistema (intrínseco) para não ficar exposto a inflação excessiva; e 4) não depender de validação de terceiros (indivíduos ou instituições). Posteriormente Back adicionou outro requisito: um protocolo que garantisse a confiabilidade e que possa ser verificado por qualquer um. Quem conhece o básico da estrutura do Bitcoin sabe que todos esses requisitos estão presentes no Bitcoin.

Montagem feita a partir de print parcial retirado em 22 06 2026 de: mailing-list-archive.cryptoanarchy.wiki/archive/1997/04/cd7308e7335eccf7d361a1bdbe32736f9ee965d80c0c3cfaca8f2d363aeb6312/

Alguns meses depois Back retornou ao tema trazendo outra coisa que está presente no Bitcoin e que é baseado na teoria dos jogos, especificamente o Problema dos Generais Bizantinos e que está presente nas redes descentralizadas que é o risco de um ou mais usuários (computadores ou nós da rede) sabotarem o sistema. Back imaginou uma rede baseada no conceito que não é mencionado no artigo, mas que é citado costumeiramente e que trazemos por nossa conta: muito grande para quebrar. Quanto maior for a rede (computadores e nós do sistema descentralizado) mais difícil se tornará sabotar o sistema. Conforme whitepaper do Bitcoin o sistema é baseado no consenso da maioria e um ou mais usuários que tenham intenção de sabotar o sistema serão ignorados (descartados). Tanto os ataques ativos tentando criar transações falsas ou revertendo transações já feitas bem como os de natureza passiva desligando os equipamentos (ou saindo da rede) não afetam o funcionamento do Bitcoin. É possível notar que a concepção de Back postadas uma década antes e as implementações criadas por Satoshi Nakamoto compartilham as mesmas bases teóricas.

Em 1998 o Cypherpunk conhecido como Wei Dai apresentou sua concepção de dinheiro eletrônico que batizou de b-money. A proposta de Wei Dai trazia uma solução para garantir o anonimato das partes envolvidas numa transação usando chaves públicas criptografadas e apresentava uma forma de cunhagem de moedas baseada no pagamento de recompensa para quem resolvesse um problema computacional (no caso do Bitcoin a recompensa é paga para quem minera primeiro um bloco de transações resolvendo um problema criptográfico e validando um conjunto de transações, processo popularmente citado como prova de trabalho). Como a criação de um dinheiro eletrônico não rastreável, seguro e não ligado aos bancos tradicionais era um tema atraente para Back ele se interessou bastante. O encanto de Satoshi Nakamoto pelo b-money de Wei Dai foi tão significativo a ponto de constar no whitepaper a citação expressa ao b-money de Wei Dai. Interagindo com a publicação de Wei Dai sobre o b-money Back propôs uma solução para evitar o problema da inflação que poderia gerar (cunhar) moedas em quantidades cada vez maiores na medida em que os computadores se tornassem mais poderosos, que é de exigir mais esforço computacional ao longo do tempo. O Bitcoin nasceu com um algoritmo que controla o tempo médio de criação de um bloco ajustando a dificuldade para cima ou para baixo para que esse tempo se mantenha em torno dos dez minutos.

Montagem feita com prints parciais do whitepaper do bitcoin em 22 06 2026 do arquivo disponível em: https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf

Em 1999 Back apresentou outra proposta em torno do tema dinheiro eletrônico para uma questão crucial de qualquer sistema de dinheiro eletrônico, o problema do gasto duplo (possibilidade de uma moeda ser usada várias vezes). A solução proposta por Back seria o registro público de todas as transações (qualquer um poderia consultar) e neste caso (do acesso público) que seja imutável (confiável, ou seja, que não possa ser alterado, revertido etc.). A estrutura proposta para esse sistema de registro público imutável se baseava no uso das árvores hash. Satoshi adotou esta estrutura no Bitcoin acrescentando o registro da data e do horário em cada transação junto com os dados de cada transação (favorecido, valor etc.) agrupando várias transações num bloco único difícil (demorado e custoso) para ser falsificado.

Até mesmo a questão do alto consumo de energia para manter um sistema de dinheiro eletrônico baseado em criptografia, redes distribuídas, etc., chegou a ser abordado por Back uma década antes do lançamento do Bitcoin. Para Back a combinação dos projetos do Hashcash e do b-money consumiria menos energia do que os bancos tradicionais consomem para manter suas operações.

Para o jornalista o Bitcoin é uma espécie de combinação melhorada do Hashcash (de Back) e do b-money (de Wei Dai).

Links:

cryptoanarchy.wiki - Cypherpunks Mailing List Archive

cryptoanarchy.wiki - Cypherpunks Mailing List Archive