Segundo The New York Times Adam Back é Satoshi Nakamoto

Um dos assuntos mais intrigantes do universo das criptomoedas, dos mais abordados e debatidos sem sombra de dúvidas, gira em torno da real identidade do criador (ou seria dos criadores?) do Bitcoin, já imortalizado pelo pseudônimo Satoshi Nakamoto. Aqui mesmo neste site já fizemos diversas postagens sobre este assunto. Ao longo dos últimos anos algumas pessoas se apresentaram como sendo o verdadeiro Satoshi. Nos últimos anos o candidato mais barulhento aparentemente foi o cientista da computação australiano Craig Wright que alegava ser o autor do white paper do Bitcoin. A tentativa de Craig de provar que era o Satoshi da vida real foi parar nos tribunais, especificamente nos tribunais do Reino Unido. Craig entrou com vários processos judiciais contra empresas e pessoas alegando ter direitos de propriedade intelectual sobre o white paper, sobre o Blockchain e praticamente sobre tudo relacionado ao Bitcoin. Uma entidade sem fins lucrativos chamada COPA – Crypto Open Patent Alliance (entidade sem fins lucrativos formado por pessoas e empresas com objetivo de incentivar a adoção e o avanço das tecnologias livres de licença que surgiram com as criptomoedas para estimular o crescimento e a inovação das criptos) resolveu entrar na briga e abriu um processo contra Craig com objetivo de acabar com a série de ameaças e processos movidos por Craig. No início do ano de 2024 um Tribunal Superior declarou em sentença no processo movido pela COPA que Craig não era Satoshi. Craig recorreu e no final do ano de 2024 um Tribunal de Apelação rejeitou o recurso de Craig. Com o aparecimento de candidatos a Satoshi um termo foi criado para designar estes supostos Satoshis que são conhecidos na comunidade como Faketoshi. Para quem tiver mais curiosidade a respeito desta batalha judicial um local para entender um pouco mais a fundo o tema é o artigo The COPA x Wright Trilogy: English High” publicado no blog The Barrister Group assinado por Brian Sanya Mandah (link no final do texto).

Segundo um extenso artigo que tem o título no original de My Quest to Solve Bitcoin’s Great Mystery, em tradução livre “Minha Busca para Desvendar o Grande Mistério do Bitcoin” publicado no dia 08 de abril de 2026 no site do jornal The New York Times (link no final do texto) assinado pelo repórter John Carreyrou e pelo editor Dylan Freedman por trás do pseudônimo Satoshi Nakamoto estaria o cientista da computação e criptógrafo de origem britânica Adam Back. O repórter chegou ao nome de Adam Back partindo de uma lista com 652 nomes de supostos Satoshis. Alguns nomes bastante conhecidos da comunidade cripto já apareceram por aqui, como por exemplo Len Sassaman, Hal Finney, Timothy May, Wei Dai e Nick Szabo. O nome de Adam Back sempre esteve entre os cotados como sendo o provável Satoshi. Eu mesmo, se ameaçado de morte e tendo que escolher um candidato, teria Back como um dos mais possíveis na lista de chutes. O artigo é bem extenso, praticamente um livro com mais de 30 páginas dividido em capítulos. Para não termos problemas legais vamos trazer apenas um breve resumo de cada capítulo deixando link para o artigo completo (em inglês) no final da postagem para quem se interessar. Os capítulos do artigo são os que seguem abaixo e servirá também como nosso guia para nossos breves e rasos comentários capítulo por capítulo.

I. A Series of Clues - Two Thin Leads (Uma Série de Pistas – Duas Pistas Próximas)

‘Down the Cryptography Rabbit Hole’ (‘Descendo até a Toca do Coelho da Criptografia’)

Becoming a Cypherpunk (Tornando-se um Cypherpunk)

A Gold Nugget (Uma Pepita de Ouro)

Spam on the Brain (Spam na Mente)

Mr. Average (O Sr. Mediano)

Napster vs. Gnutella (Napster vs Gnutella)

II. Buried Road Map - Outlining Bitcoin a Decade Before Bitcoin (Mapa Oculto – Esboçando o Bitcoin uma Década Antes do Bitcoin )

Radio Silence (Silêncio no Rádio)

Satoshi Appears, Mr. Back Disappears (Satoshi Aparece, o Sr. Back Desapacer e)

Suddenly All In (De Repente, Totalmente Engajado)

III. Closing In - Alternative Theories (Chegando perto – Teorias Alternativas)

‘Better With Code Than With Words’ (‘Melhor com Códigos do que com Palavras’)

Spelling and Grammar (Ortografia e Gramát i ca)

From 34,000 Down to One (De 34.000 para Um)

IV. Confrontation - El Salvador (Confronto – El Salvador)

Links:

Link para o artigo completo em inglês:

https://www.nytimes.com/2026/04/08/business/bitcoin-satoshi-nakamoto-identity-adam-back.html

Artigo publicado no Infomoney:

https://www.infomoney.com.br/mundo/nyt-afirma-ter-descoberto-o-criador-do-bitcoin-apos-um-ano-de-investigacao/

Artigos sobre a disputa COPA x Craig Wright

https://thebarristergroup.co.uk/blog/the-copa-v-wright-trilogy

https://www.infomoney.com.br/business/autoproclamado-inventor-do-bitcoin-e-condenado-por-abrir-acao-de-r-7-trilhoes/

https://br.tradingview.com/news/cointelegraph:d982b5393bc81:0/

Conti nua…

Na parte inicial do texto o autor explica o motivo da busca pela identidade verdadeira de Satoshi Nakamoto. O ponto de partida foi em 2024 enquanto ouvia um podcast chamado Hard Fork do New York Times que falava sobre um documentário da HBO (em 2024, no Brasil o canal usava o nome de Max) que afirmava ter descoberto quem era Satoshi Nakamoto. O nome original do documentário é Money Eletric: the Bictoin Mystery (título em português: Moeda Digital: O Mistério do Bitcoin) lançado em outubro de 2024 e que apontou o desenvolvedor Canadense Peter Todd como sendo Satoshi Nakamoto. Já postamos aqui sobre o documentário na época do lançamento. A identidade real de Satoshi, como para a grande maioria dos fãs do Bitcoin, é um grande mistério. O próprio autor já tinha se aventurado antes na busca pela identidade de Satoshi, mas acabou desistindo e ao ver alguém dizendo que tinha encontrado o Satoshi verdadeiro a curiosidade bateu forte. O autor até reconhece que o documentário traz uma visão panorâmica interessante sobre o universo das criptomoedas. No entanto, a conclusão que aponta para o desenvolvedor Canadense não convenceu por falta de evidências mais embasadas, na visão do autor. O que chamou a atenção de John Carreyrou a ponto de partir para uma pesquisa mais profunda que resultou no texto que estamos comentando foi notar que Adam Back não estava à vontade nas imagens do documentário. Olhos evasivos, risada forçada e movimento brusco da mão esquerda chamaram a atenção de John Carreyrou que reviu a cena diversas vezes.

Muitos nomes já foram ventilados e várias pessoas tentaram identificar Satoshi. A grande maioria se debruçou sobre o material que sabidamente foi deixado por Satoshi. Apesar de manter-se bem oculto até agora Satoshi deixou muitos textos incluindo o próprio white paper, e-mails e postagens no fórum Bitcointalk. Ao longo do tempo praticamente todos que se esforçaram para indicar um ou outro nome da vida real como sendo o verdadeiro Satoshi não conseguiram apresentar a evidência matadora. O que se sabe com certeza é que Satoshi era uma espécie de libertário (antigoverno), tinha razoável conhecimento de programação e conjugava bem esse conhecimento com outros conceitos utilizados na criação do Bitcoin em áreas como economia, matemática e criptografia, mesmo não sendo um grande especialista em cada uma dessa áreas. Outro detalhe, caso ele ainda esteja vivo (há dúvidas sobre isso), é um dos grandes bilionários da face da terra.

O mistério persiste desde que o Bitcoin foi lançado, cerca de 16 anos atrás. E John Carreyrou que já tinha começado uma pesquisa sobre o assunto resolveu enfrentar o tema. E para isso John Carreyrou escolheu um nome desde o início e saiu atrás das tais evidências que comprovariam a sua escolha por Adam Back. O que vem a seguir é esta história, que vamos comentar em capítulos.

O link para o texto completo (no original) está disponível na primeira postagem.

Link onde existe bastante material sobre Satoshi incluindo postagens, e-mails originais.

Algumas postagens sobre Satoshi que já fizemos por aqui:

https://tribocrypto.com/t/quem-e-satoshi-nakamoto-documentario-hbo-2024/1885

https://tribocrypto.com/t/o-mundo-pequeno-que-cerca-o-nascimento-do-bitcoin/1390

https://tribocrypto.com/t/por-onde-anda-o-criador-do-bitcoin-satoshi-nakamoto/675

I – Uma Série de Pistas - Duas Pistas Próximas

John Carreyrou sabia que existiam dezenas de possíveis candidatos citados desde que o Bitcoin foi lançado. O primeiro passo foi encontrar um jeito de dar uma boa peneirada para afunilar a pesquisa.

Um fato que chamou a atenção de John Carreyrou foi a mistura do inglês britânico com o americano nos e-mails e postagens assinados por Satoshi Nakamoto. Já tratamos deste aspecto em particular por aqui em outra postagem que discutiu a possibilidade de Satoshi ser um cidadão britânico. Um dos argumentos mais citados pelos defensores da tese que coloca Satoshi como britânico é a inclusão de uma manchete da edição impressa na Inglaterra do jornal The Times do dia 03/01/2009 que transcrevemos no original: “Chancellor on brink of second bailout for banks”, em tradução livre seria algo como “Ministro da Fazenda está prestes a salvar bancos pela segunda vez”.

Outro fator que a grande maioria dos curiosos a respeito da identidade de Satoshi concorda é a grande possibilidade Satoshi ser membro de um grupo de anarquistas formado no começo dos anos 90, os Cypherpunks. Como anarquistas (anti-governos) um dos principais, senão o principal objetivo do grupo era se proteger da vigilância dos governos e dos respectivos riscos inerentes ao fato de serem contra governos. A principal forma de comunicação desse grupo, lembrando que o grupo nasceu no início dos anos 90, era através de troca de e-mails que eram copiados para uma grande lista de destinatários que respondiam para todos. Era algo mais ou menos parecido com o que os atuais grupos de “zap” (Whatsapp) trocando mensagens criptografadas. Também já tratamos deste tema por aqui.

Quem usa dinheiro físico (ou vivo) representado por cédulas de papel impressas pela Casa da Moeda não faz a mínima ideia de onde ela veio e por quantas mãos vai circular ao longo do tempo. Dinheiro vivo basicamente não pode ser rastreado. Qualquer pagamento feito por meio de algum sistema digital deixa rastros, entre outros motivos porque os governos criam regras sobre guarda das movimentações feitas pelos clientes dos bancos, das empresas de cartões, etc. Um tema debatido dentro da comunidade dos Cypherpunks era a criação de uma forma de pagamento que não poderia ser rastreado tal como ocorre com o dinheiro físico. Como provável participante do grupo Satoshi teria criado uma lista apartada dentro do grupo principal que chamou de Cryptography list (lista ou grupo de criptografia). Ao menos duas pessoas desta lista específica supostamente eram conhecidas por Satoshi.

John Carreyrou examinou atentamente diversos textos atribuídos a Satoshi, principalmente os e-mails e criou uma lista de palavras e frases que chamaram sua atenção. Um exemplo é o uso da palavra tipicamente americana “dang” (usado para ofender sem ser muito pesado), uma espécie de palavrão suavizado que vem da palavra “damn” (droga, caramba). Outro uso curioso foi da palavra “backup” escrito junto e usado num texto como verbo. Como verbo a forma gramatical correta seria “back up” escrito separadamente. “Backup” escrito junto é usado como adjetivo ou substantivo. Com base neste tipo de detalhe e na lista de palavras pescadas nos textos pesquisados o jornalista concluiu que a escrita de Satoshi era uma estranha combinação de britânico da alta sociedade, caipira americano, nerd de computador e criptógrafo. A partir daí John Carreyrou cruzou as mais de cem palavras que tinha separado com postagens no antigo twitter, atual “X”. Certamente nem todos os supostos Satoshis tem conta no “X” e também não foi usado nenhum critério científico. Mesmo assim o cruzamento entre as palavras separadas por John Carreyrou e mensagens escritas por supostos Satoshis no “X” deu resultado, um usuário em especial usava quase todas as palavras listadas pelo jornalista: o usuário Adam Back.

Outros detalhes que aguçaram a curiosidade do jornalista sobre Adam Back: ele era britânico, era membro do grupo Cypherpunk e havia criado o Hashcash, que foi usado por Satoshi para criar o Bitcoin, ganhando inclusive citação do Satoshi no whitepaper do Bitcoin. Durante o rumoroso julgamento nos tribunais britânicos sobre a identidade de Satoshi onde o criptógrafo australiano Craig Wright alegava ser Satoshi um documento foi apresentado por Adam Back como prova, era um e-mail enviado pelo usuário Satoshi datado de agosto de 2008 para Adam Back, antes da publicação do whitepaper em 31/10/2008. Em tese este e-mail comprovaria que Adam e Satoshi não eram a mesma pessoa.

Para John Carreyrou, no entanto, Adam pode ter enviado o e-mail para si mesmo como uma espécie de cobertura para disfarçar sua identidade real.

Links:

Descendo até a toca do coelho da criptografia

Tendo escolhido Adam Back como Satoshi Nakamoto o jornalista John Carreyrou partiu atrás de Back para encontra-lo pessoalmente sob o pretexto de fazer uma entrevista. Isso ocorreu em 2025 nos EUA durante um evento conhecido como Bitcoin 2025. Mesmo tendo decidido que Back era Satoshi o objetivo inicial era apenas o de conhecê-lo e pescar a maior quantidade de informações possíveis sem despertar maiores suspeitas sobre seu objetivo principal. Um eventual encontro para tentar obter algum tipo de confirmação objetiva ficaria para o final da reportagem.

Na definição de John Carreyrou o criptógrafo Adam Back tinha a aparência de um matemático desleixado com óculos de aro de metal, paciente, amigável, de voz suave, que não tomava precauções visíveis com sua segurança sendo talvez uma das pessoas mais ricas do mundo, de cabelos grisalhos ralos e cavanhaque, resumindo um nerd de meia idade.

A conversa fluiu bem quando a conversa girou em torno do Bitcoin. Com relação a vida pessoal já foi mais difícil arrancar detalhes a partir da infância. Além do fato de Back ter nascido em Londres nos anos 70 o jornalista conseguiu obter algumas informações importantes para embasar sua teoria: Interesse por criptografia desde a infância, em especial no PGP (Pretty Good Privacy); redes de computadores distribuídos e conectados por meio de “nós”; linguagem C++. De uma forma ou de outra todos os interesses citados estiveram presentes na construção inicial do Bitcoin.

Tornando-se um Cypherpunk

Adam Back entrou para um fórum criado pelos cypherpunks por volta de 1995, pouco tempo depois do término da pós-graduação. Logo se tornou um dos usuários mais ativos da comunidade. Numa das primeiras postagens Adam Back solucionou um desafio criptográfico postado por Hal Finney (Harold Thomas Finney foi um programador, criptógrafo e cientista da computação americano que faleceu em 28/08/2014 e faz parte da lista de supostos Satoshis). Entre outras coisas Finney foi o destinatário da primeira transação conhecida de bitcoin enviada por Satoshi Nakamoto para testar o funcionamento do sistema.

Back e Finney se tornaram próximos. Em dezembro de 2010 Finney fez uma postagem no fórum Bitcointalk elogiando o código do Bitcoin e cerca de duas horas depois Satoshi respondeu agradecendo a Finney pelo elogio.

Finney havia criado um sistema de dinheiro eletrônico que batizou de R.P.O.W. (Reusable Proofs of Work) em tradução livre “Prova de Trabalho Reutilizável”. Este sistema incorporava o Hashcash (algoritmo ou sistema de prova de trabalho criado por Adam Back em 1997). Talvez por causa disso Adam Back foi uma das pessoas que chegaram a falar sobre o sistema criado por Finney nas listas de discussões dos Cypherpunks e dos Criptógrafos.

Links:

Uma Pepita de Ouro

Para o jornalista John Carreyrou a figura obcecada por privacidade de Adam Back se sentiu em casa entre os Cypherpunks, nas palavras dele Back teria encontrado suas almas gêmeas”. Na linha do tempo isso ocorreu por volta de 1995, nos tempos da internet discada e ao contrário de Back a maioria dos outros membros do grupo eram americanos. Foi nessa época que Back abraçou a criptoanarquia, uma ideologia que muitos cypherpunks idolatravam, que defendia o uso da criptografia para se proteger do Estado. Esse apego de Back pelo libertarismo fez com que Back ficasse profundamente irritado com o governo Clinton que abriu investigação criminal contra o criador do PGP (Pretty Good Privacy) que foi lançado gratuitamente pelo seu criador Philip R. Zimmermann, um cientista da computação e criptógrafo americano. Como protesto Back estampou camisetas com algoritmo de criptografia e os distribuiu para outros membros do grupo. John Carreyrou viu semelhança entre esse protesto codificado numa camiseta e a inserção da manchete do Times de Londres no primeiro bloco de transações do Bitcoin. O jornalista cita também outro protesto cifrado publicado por Back, segundo Satoshi sua data de nascimento seria 5 de abril de 1975. A data e o mês correspondem a data em que o presidente dos EUA Roosevelt proibiu a posse privada de ouro em 1933 e o ano de 1975 foi o ano em que a proibição acabou. Para muitos entusiastas o Bitcoin é equivalente ao ouro, em formato digital, que não pode ser proibido e principalmente desvalorizado.

Spam na Mente

Outra coincidência que John Carreyrou encontrou entre Satoshi e Back era o incomodo com spam. Em certo momento da vida Back foi administrador de um serviço que removia dados de identificação nos e-mails antes deles serem reencaminhados, permitindo que os usuários ficassem anônimos. Apesar das intenções libertárias de Back essa funcionalidade passou a ser usada pelos spammers que enchiam as caixas de e-mails com lixo eletrônico. Isso levou Back a criar o Hashcash que foi lançado em 1997. Em resumo o Hashcash exigia a resolução de pequenos cálculos matemáticos que qualquer PC resolvia em poucos segundos, mas para os spammers que disparavam muitos e-mails de uma vez a tarefa se tornava muito mais trabalhosa e demorada. John Carreyrou encontrou a palavra spam em pelo menos 24 textos de Satoshi expressando pontos de vista bastante parecidos. Ainda na linha de ideias semelhantes entre Back e Satoshi, alguns meses após o lançamento do Hashcash Back defendeu entre os Cypherpunks que sua criação poderia ser útil para quem recebia muitos e-mails e poderia filtrar as mensagens indesejadas sem expor seus dados para qualquer um. Logo após o lançamento do Bitcoin Satoshi defendeu um novo propósito para o exército de computadores zumbis que eram controlados pelos spammers para inundar as caixas de e-mails com spam, a mineração de bitcoins. Quatro anos depois num comentário feito por Adam Back no fórum Bitcointalk consta o seguinte trecho, em tradução livre: “Talvez o spam até diminuía se a mineração de CPU/GPU se torne um mercado mais lucrativo do que disparar muitos spam, acho muito provável que seja. No original em inglês: “Maybe spam would even fall if Hashcash CPU/GPU mining is a more profitable market than spamming. It seems to me highly likely that it would be”.

O Sr. Mediano (Um Homem Comum)

A tarefa de identificar Satoshi não estava sendo fácil para John Carreyrou. O jornalista sabia que a comunidade dava como certo que Satoshi aparentemente tinha cometido dois erros muito citados. O lançamento do Bitcoin teria sido feito a partir de um endereço IP localizado na região sul da Califórnia, nos EUA, e um dos e-mails de Satoshi teria sofrido um ataque hacker. Para o jornalista talvez esses erros não tenham sido exatamente erros.

Enquanto avançava nas pesquisas para esta matéria o jornalista notou que Adam Back usava e abusava de pseudônimos, ele gostava de navegar na internet da forma mais anônima possível e bem longe da vigilância dos governos. Este era um ponto que ele tinha em comum com Satoshi. Em tradução livre, um texto de Back datado de 1998 dizia o seguinte: “Você precisa estar longe dos radares, precisa ser essencialmente invisível para os governos, ser um homem comum para eventuais dossiês de serviços de espionagem, um inocente homem comum. Daí surge a necessidade de ter um ou mais alter egos para seus interesses reais”. No original em inglês: “You must be below the radar belt, you must be essentially invisible to the government, the spooks dossier on you must read Mr Average and be entirely wholesome. Then you must have one or more alter-egos, for your real interests”.

Em 1997 Back se interessou por uma lista de remailer (sistema de reenvio de e-mails com objetivo de mascarar o remetente original) criado por um cypherpunk japonês, a ponto de parabenizar o autor e fazer algumas perguntas sobre possíveis diferenças entre a legislação japonesa e americana. Para Back a conversa com o cypherpunk japonês acabou por ali, sem resposta da outra parte. Por outro lado, Satoshi Nakamoto registrou o site bitcoin-org e criou duas contas de e-mail não rastreáveis usando serviço de uma empresa com sede em Tóquio chamada Anonymousspeech L.L.C.que oferecia serviços de hospedagem na web e endereços de e-mail não rastreáveis.

Dois anos depois, em 1999 Back mudou-se para o Canadá indo morar em Montreal para trabalhar numa startup local focada em privacidade, onde contribuiu para o projeto de criação de um sistema de privacidade batizado de Freedom Network. Era um sistema baseado em redes que tinha como objetivo evitar monitoramento das navegações realizadas por seus usuários. Esse projeto que permitia navegação anônima na internet foi precursor do Onion Router, que é mais conhecido pela sigla TOR. Segundo opinião corrente dentro da comunidade, Satoshi teria usado o TOR para ocultar suas pegadas, por exemplo ao realizar postagens no fórum Bitcointalk.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tor_ (rede_de_anonimato)

Napster vs. Gnutella

Depois de alguns meses mergulhado na tarefa de comprovar que Adam Back é Satoshi Nakamoto o jornalista sentiu que estava seguindo pistas falsas e entrando em becos sem saída. Nessas idas e vindas ele percebeu que Back e Satoshi tinham aversão a direitos autorais. Em tradução livre Back teria escrito a seguinte frase em setembro de 1997: “Acabem com as patentes e os direitos autorais”. O sistema antispam Hashcash que Back criou foi lançado com código aberto. Já Satoshi Nakamoto colocou isso literalmente em prática ao lançar o Bitcoin com código aberto sem qualquer restrição. Ambos também criaram listas de discussão na internet onde os demais usuários poderiam propor correções, atualizações e melhorias com formatos e estilos bastante parecidos. O logotipo do Bitcoin que Satoshi criou também não tem direitos autorais.

Essa questão dos direitos autorais ganhou tração dentro da comunidade no início dos anos 2000 com a desativação do Napster que tomou um processo gigantesco movido pelas gravadoras. A base de funcionamento do Napster era o compartilhamento de conteúdo diretamente entre os próprios usuários sem depender de um servidor central, ou seja, funcionava no sistema de rede ponto a ponto. Nessa época Back compartilhou entre os Cypherpunks um artigo escrito por um advogado especializado em propriedade intelectual listando todos os riscos que os criadores de software baseados em redes P2P estariam submetidos. E nas palavras de Back a forma mais segura e simples de continuar criando softwares que utilizam redes P2P seria o criador ficar anônimo. Nessa linha o Bitcoin, tal como era o Napters, funciona baseado em rede P2P e no lugar das gravadoras entram os governos com suas moedas podendo ser substituídas por dinheiro digital que não poderia ser controlado. O risco era potencialmente muito maior se a identidade do criador do Bitcoin se tornasse pública e isso explicaria por que a real identidade de Satoshi Nakamoto não é conhecido. Enquanto as gravadoras tinham interesses comerciais os governos têm outros interesses, numa escala muito maior, ainda mais se considerarmos o poder que está por trás do processo de emissão e gestão da circulação das moedas oficiais. Para Adam Back o que tinha ocorrido com o Napster tinha sido uma espécie de aviso. Embora o sistema de funcionamento do Napster estivesse baseado na rede P2P eles mantinham um servidor central onde armazenavam um ranking com os usuários que tinham maior quantidade de músicas.

Cerca de um ano após o surgimento do Napster nasceu outro projeto de troca de músicas via rede P2P, neste caso tivemos um projeto “raiz”, funcionando através da interligação de computadores independentes espalhados pela internet sem nenhuma ligação com algum tipo de servidor centralizado, tal como foi feito na criação do Bitcoin.

Essa diferença fundamental entre o formato de funcionamento do Napster e do Gnutella não passou despercebido para Back que comparou os dois sistemas pelo menos três vezes em listas diferentes de discussão dos Cypherpunks. Mesmo funcionando via rede P2P o Napster estava linkado com um servidor centralizado enquanto o Gnutella nasceu sem nenhuma ligação com um servidor centralizado, tal como ocorreu posteriormente com a criação do sistema do Bitcoin, totalmente descentralizado.

II – Roteiro Oculto

Esboçando o Bitcoin uma Década Antes do Bitcoin

Até esta altura o jornalista tinha descoberto vários aspectos similares entre Satoshi Nakamoto e Adam Back mas, ainda não tinha nada que ligava diretamente Back com o Bitcoin. As coisas começaram a mudar quando o jornalista trombou com uma série de postagens de Back feitas entre 1997 e 1999, uma década antes do surgimento do Bitcoin (2009).

Aqui as coisas começam a ficar interessantes. Conforme montagem de nossa autoria, copiamos parte da postagem que está disponível no site cryptoanarchy (link no final da postagem). Back lista alguns atributos que seriam o pilar para a existência de um sistema bancário totalmente virtual (eletrônico) sem conexão com o sistema bancário tradicional. Da lista de 6 requisitos citados na mensagem o jornalista destacou os quatro primeiros: 1) privacidade das partes de uma transação (remetente e recebedor); 2) funcionamento numa rede distribuída para dificultar o fechamento; 2) ter algum mecanismo controlando a escassez embutido dentro do próprio sistema (intrínseco) para não ficar exposto a inflação excessiva; e 4) não depender de validação de terceiros (indivíduos ou instituições). Posteriormente Back adicionou outro requisito: um protocolo que garantisse a confiabilidade e que possa ser verificado por qualquer um. Quem conhece o básico da estrutura do Bitcoin sabe que todos esses requisitos estão presentes no Bitcoin.

Montagem feita a partir de print parcial retirado em 22 06 2026 de: mailing-list-archive.cryptoanarchy.wiki/archive/1997/04/cd7308e7335eccf7d361a1bdbe32736f9ee965d80c0c3cfaca8f2d363aeb6312/

Alguns meses depois Back retornou ao tema trazendo outra coisa que está presente no Bitcoin e que é baseado na teoria dos jogos, especificamente o Problema dos Generais Bizantinos e que está presente nas redes descentralizadas que é o risco de um ou mais usuários (computadores ou nós da rede) sabotarem o sistema. Back imaginou uma rede baseada no conceito que não é mencionado no artigo, mas que é citado costumeiramente e que trazemos por nossa conta: muito grande para quebrar. Quanto maior for a rede (computadores e nós do sistema descentralizado) mais difícil se tornará sabotar o sistema. Conforme whitepaper do Bitcoin o sistema é baseado no consenso da maioria e um ou mais usuários que tenham intenção de sabotar o sistema serão ignorados (descartados). Tanto os ataques ativos tentando criar transações falsas ou revertendo transações já feitas bem como os de natureza passiva desligando os equipamentos (ou saindo da rede) não afetam o funcionamento do Bitcoin. É possível notar que a concepção de Back postadas uma década antes e as implementações criadas por Satoshi Nakamoto compartilham as mesmas bases teóricas.

Em 1998 o Cypherpunk conhecido como Wei Dai apresentou sua concepção de dinheiro eletrônico que batizou de b-money. A proposta de Wei Dai trazia uma solução para garantir o anonimato das partes envolvidas numa transação usando chaves públicas criptografadas e apresentava uma forma de cunhagem de moedas baseada no pagamento de recompensa para quem resolvesse um problema computacional (no caso do Bitcoin a recompensa é paga para quem minera primeiro um bloco de transações resolvendo um problema criptográfico e validando um conjunto de transações, processo popularmente citado como prova de trabalho). Como a criação de um dinheiro eletrônico não rastreável, seguro e não ligado aos bancos tradicionais era um tema atraente para Back ele se interessou bastante. O encanto de Satoshi Nakamoto pelo b-money de Wei Dai foi tão significativo a ponto de constar no whitepaper a citação expressa ao b-money de Wei Dai. Interagindo com a publicação de Wei Dai sobre o b-money Back propôs uma solução para evitar o problema da inflação que poderia gerar (cunhar) moedas em quantidades cada vez maiores na medida em que os computadores se tornassem mais poderosos, que é de exigir mais esforço computacional ao longo do tempo. O Bitcoin nasceu com um algoritmo que controla o tempo médio de criação de um bloco ajustando a dificuldade para cima ou para baixo para que esse tempo se mantenha em torno dos dez minutos.

Montagem feita com prints parciais do whitepaper do bitcoin em 22 06 2026 do arquivo disponível em: https://bitcoin.org/files/bitcoin-paper/bitcoin_pt_br.pdf

Em 1999 Back apresentou outra proposta em torno do tema dinheiro eletrônico para uma questão crucial de qualquer sistema de dinheiro eletrônico, o problema do gasto duplo (possibilidade de uma moeda ser usada várias vezes). A solução proposta por Back seria o registro público de todas as transações (qualquer um poderia consultar) e neste caso (do acesso público) que seja imutável (confiável, ou seja, que não possa ser alterado, revertido etc.). A estrutura proposta para esse sistema de registro público imutável se baseava no uso das árvores hash. Satoshi adotou esta estrutura no Bitcoin acrescentando o registro da data e do horário em cada transação junto com os dados de cada transação (favorecido, valor etc.) agrupando várias transações num bloco único difícil (demorado e custoso) para ser falsificado.

Até mesmo a questão do alto consumo de energia para manter um sistema de dinheiro eletrônico baseado em criptografia, redes distribuídas, etc., chegou a ser abordado por Back uma década antes do lançamento do Bitcoin. Para Back a combinação dos projetos do Hashcash e do b-money consumiria menos energia do que os bancos tradicionais consomem para manter suas operações.

Para o jornalista o Bitcoin é uma espécie de combinação melhorada do Hashcash (de Back) e do b-money (de Wei Dai).

Links:

cryptoanarchy.wiki - Cypherpunks Mailing List Archive

cryptoanarchy.wiki - Cypherpunks Mailing List Archive

Silêncio no Rádio

Dando sequência aos contatos com Adam Back o jornalista voltou a trocar e-mails com Back questionando o motivo da mudança de Back para Malta, uma república formada por cinco ilhas localizadas ao sul da ilha Italiana de Sicília e a meio caminho da África. Não é exatamente um paraíso fiscal, mas pode-se dizer que é um parente próximo oferecendo condições fiscais atraentes para os seus moradores, fato que atrai moradores. Back justificou sua mudança para Malta entre outros motivos pelo custo de vida, clima e obviamente por causa dos impostos mais amigáveis.

Nesta altura da coleta de informações na tentativa de comprovar que Adam Back é Satoshi o jornalista aborda uma questão referente ao momento controverso em que Satoshi teria conhecido o b-money de Wei Dai. Apesar de Satoshi Nakamoto ter citado o Hashcash e o b-money no whitepaper do Bitcoin algumas trocas de mensagens feitas entre Back e Satoshi davam a entender que Satoshi teria feito referência ao b-money no whitepaper somente após ter recebido indicação de Adam Back. Para o jornalista não havia tanta controvérsia a respeito desse tema, para ele Back já tinha feito referências ao b-money enquanto discutia o seu projeto Hashcash. Entre outras alegações sobre o fato de Satoshi estar ciente e ter usado ideias do b-money ou não em seu projeto do Bitcoin Back alegou que Satoshi poderia estar fingindo que não sabia. Se Satoshi fizesse muitas citações por conta própria poderia dar pistas da sua identidade e admitir que conheceu o b-money através da indicação de Back seria uma forma de usar conceitos do b-money sem admitir que já o conhecia e estava aproveitando isso na criação do Bitcoin.

Para o jornalista tudo indicava que Back se passava por Satoshi e enviava e-mails em nome de Satoshi para ele mesmo como Adam Back, justamente para evitar que terceiros concluíssem que Back era Satoshi.

Para tentar dirimir esta questão o jornalista pediu para Back enviar metadados de alguns e-mails que ele tinha trocado com Satoshi. Cópias dessas mensagens tinham sido enviadas por Back para a justiça Inglesa como material probatório do processo judicial COPA x Craig Wright citado na primeira postagem (o conteúdo destas mensagens acabaram se tornando públicas) mas, não continham os metadados. O jornalista sabia que Satoshi tinha tomado muitas precauções, como utilizar um serviço de e-mail anônimo Japonês que ocultaria o IP verdadeiro e para dificultar mais um pouco, provavelmente teria usado o navegador TOR quando acessava o serviço anônimo de e-mail.

O primeiro e-mail com a solicitação dos metadados não teve resposta de Back. Oito dias depois o jornalista enviou outro e-mail e continuou sem resposta. Este silêncio de Back deixou o jornalista John Carreyrou intrigado e achando que poderia ter chegado num ponto importante da pesquisa que estava conduzindo. Será que Satoshi tinha cometido algum erro?

Satoshi Aparece, o Sr. Back Desaparece

O whitepaper do Bitcoin foi enviado para uma lista de discussão sobre criptografia exatamente no dia 31/10/2008 por um usuário que usava o pseudônimo de Satoshi Nakamoto. Essa data coincide com o dia do Halloween de 2008, que sempre é celebrado no dia 31 de outubro de cada ano, é uma data fixa como natal e ano novo.

A partir da apresentação do whitepaper até o dia 26/04/2011 o usuário Satoshi Nakamoto permaneceu ativo na comunidade aprimorando o Bitcoin com a ajuda de outros membros que se entusiasmaram com a ideia do dinheiro eletrônico confiável e não rastreável. De 31/10/2008 até 26.04.2011 temos cerca de 900 dias ou 2 anos. O cenário desse trabalho colaborativo foi o fórum Bitcointalk e grupos de e-mails da comunidade dos criptógrafos e dos cypherpunks. Esse núcleo original de desenvolvedores que colaborou com o projeto praticamente deu o formato inicial do Bitcoin Core. O repórter não cita nomes de participantes deste grupo, mas podemos acrescentar por nossa conta que entre os mais conhecidos desse núcleo original está Gavin Andresen tido como principal mantenedor do programa na fase inicial até abril de 2014 sendo substituído por Wladimir Van Der Laan que se afastou em fevereiro de 2023 alegando esgotamento. Atualmente um grupo de desenvolvedores cuida do Bitcoin core que recebe doações de diversas instituições para se manter ativo.

Apesar de ter sido um usuário bastante interessado no tema dinheiro eletrônico dentro da comunidade Cypherpunk e Criptography fazendo comentários e enviando mensagens longas e detalhadas Adam Back ficou ausente quando Satoshi Nakamoto surgiu com sua proposta sobre a criação do Bitcoin, uma ideia que era próxima do que ele tinha defendido até então.

Em dezembro de 2013 Back participou de um podcast chamado Lets Talk Bitcoin, em tradução livre “Vamos Falar sobre Bitcoin” onde disse que teria ficado muito interessado na invenção de Satoshi Nakamoto, especialmente sobre o ponto de vista técnico e que havia participado das discussões quando o Bitcoin tinha sido apresentado em outubro de 2008.

O jornalista fez uma pesquisa detalhada e disse na reportagem que não encontrou qualquer manifestação ou contribuição de Adam Back nas listas de discussão sobre Bitcoin no período do outono de 2008 até o inverno de 2009 (lá nos EUA). Segundo relato do jornalista a primeira manifestação do Sr. Back sobre o Bitcoin ocorreu apenas em junho de 2011, seis semanas após o desaparecimento de Satoshi Nakamoto (26/04/2011).

Para o jornalista, Back que era um entusiasta declarado do dinheiro eletrônico e que defendia uma proposta muito parecida com a que foi apresentada por Satoshi Nakamoto não mostrou interesse pelo projeto do Bitcoin quando ele foi lançado permanecendo ausente de outubro de 2008 até meados de 2011, cerca de três anos.

A entrada de Adam Back como usuário do fórum Bitcointalk ocorreu em 17/04/2013, mesma data em que o criptógrafo argentino Sergio Demian Lerner publicou um artigo em seu blog revelando o montante da fortuna de Satoshi. Uma semana depois Demian publicou uma nova postagem que mereceu um comentário de Adam Back na área de comentários sugerindo que seria melhor parar de falar sobre esse assunto, no interesse de Satoshi.

Montagem feita a partir de imagens parciais printadas em 06 07 2026 de: The Well Deserved Fortune of Satoshi Nakamoto, Bitcoin creator, Visionary and Genius | Bitslog

De Repente, Totalmente Engajado

Print parcial retirado em 12 07 2026 de: Introduce yourself :slight_smile:

Prosseguindo com o relato do jornalista, conforme nossa última postagem, existe uma coincidência entre o desaparecimento total de Satoshi sem deixar pegadas e o surgimento de um novo personagem, Adam Back. O título já entrega o foco deste tópico, Satoshi que até então coordenava os passos iniciais do Bitcoin desapareceu e surgiu Adam Back contribuindo bastante para o projeto.
Logo após se apresentar no fórum bitcointalk em abril de 2013 lembrando que o paper original do Bitcoin foi lançado em outubro de 2008, Adam Back se mostrou bastante engajado. Suas contribuições propondo melhorias para o Bitcoin tinham um nível de complexidade muito alto. Além de contribuir para o projeto, Back exigiu que a Wikipedia restaurasse a página dedicada a Satoshi Nakamoto e quase dois anos depois fundou a Blockstream que criou várias ferramentas que ajudaram a rede do Bitcoin se tornar mais fácil, rápido e com mais privacidade.
Em pouco tempo Back se tornou figura central dentro da pequena comunidade que surgiu em torno do Bitcoin. Para trabalhar na Blockstream Back recrutou alguns desenvolvedores do Bitcoin core na época, que estavam trabalhando para empresas como Google e Mozilla. Nos anos seguintes a Blockstream captou financiamentos de mais de 1 bilhão de dólares e alcançou um valor de mercado estimado na casa dos 3.2 bilhões de dólares. O valor é estimado porque a Blockstream é uma empresa de capital fechado.

Em outubro de 2014 Back e outros publicaram um paper com o título original de Enabling Blockchain Innovations with Pegged Sidechains, em tradução livre: “Viabilizando inovações em blockchain com sidechains vinculadas”.

Print parcial retirado em 12 07 2026 de: sidechains.pdf

Logo na introdução do paper temos uma espécie de “crítica” ao DigiCash de David Chaum criado no final da década de 1980. Ao contrário do Bitcoin que nasceu totalmente descentralizado operando numa rede P2P o DigiCash rodava ancorado num servidor central, chamado de “calcanhar de Aquiles”, e quando o DigiCash acabou em 1998 a moeda também desapareceu. A frase original no paper é: “The requirement for a central server became the Achilles’ heel of digital cash”. De acordo com o jornalista foi exatamente nestes termos que Satoshi Nakamoto tinha se referido ao DigiCash cinco anos antes quando se referiu a ausência de um servidor central no Bitcoin como a maior diferença com relação ao DigiCash, Satoshi se referiu a existência de um servidor central no DigiCash como calcanhar de Aquiles do sistema criado por Chaum.
Em 2015 ocorreu um debate intenso dentro da comunidade do Bitcoin sobre o aumento de tamanho do bloco. A proposta era liderada por um grupo de desenvolvedores do Bitcoin core integrado por nomes como Gavin Andresen e Mike Hearn e foi chamado de projeto Bitcoin XT propondo aumento do tamanho do bloco para 8MB com duplicação automática desse limite a cada dois anos. Esse aumento de tamanho tinha como objetivo incluir uma quantidade maior de transações em cada bloco minerado de Bitcoin.
Um dos principais críticos desta proposta foi Back, demonstrando sua oposição ao projeto entre os desenvolvedores do Bitcoin. Os argumentos contrários ao aumento se concentravam no fato de blocos maiores exigirem máquinas mais potentes e conexões mais rápidas. Em outros termos, o aumento implicava em maiores custos para quem mantinha nós da rede Bitcoin. Esse aumento no tamanho dos blocos refletia no aumento dos custos e essa decisão afastaria mantenedores da rede e poderia deixar a rede concentrada nas mãos de poucos, ameaçando a segurança do sistema.
No meio dos debates acalorados a respeito do aumento ou não do tamanho dos blocos, exatamente no dia 15/08/2015 um e-mail entrou no debate sobre aumento ou não do tamanho dos blocos que estava transcorrendo na lista de e-mail bitcoin-dev. Seu remetente era Satoshi Nakamoto que depois de um longo período ausente estaria manifestando sua opinião a respeito do tema.

Print parcial retirado em 12 07 2026 de: [bitcoin-dev] Bitcoin XT Fork - Satoshi Nakamoto

Tirando uma rápida aparição para negar uma reportagem da revista Newsweek que alegava ter descoberto a identidade de Satoshi essa manifestação ocorreu após cerca de quatro anos de ausência. Depois dessa mensagem não existe outra mensagem conhecida vindo desse endereço de e-mail.
Como era de se esperar muitos duvidaram da autenticidade até porque a outra conta de e-mail de Satoshi tinha sido hackeado. Usando o “X”, antigo tweeter, Adam Back disse que a manifestação de Satoshi eram consistentes e detalhadas, semelhantes a opiniões conhecidas de Satoshi, para Back o e-mail parecia legítimo.
O jornalista registra que mesmo não tendo sido notado na época a manifestação de Satoshi tinha semelhança com as posições defendidas por Back que entendia que havia risco de centralização crescente da rede Bitcoin com o aumento do tamanho do bloco. Satoshi chamou esse aumento de “perigoso”, mesmo termo que Back tinha usado algumas vezes enquanto argumentava contra o projeto.

Print parcial retirado em 12 07 2026 de: Adam Back no X: “.@22loops @marceljamin @docbtc the post has some authentication - it is from an early vistomail address known to be used by Satoshi.” / X

No e-mail Satoshi classificou Andresen e Hearn como dois imprudentes tentando tomar conta do Bitcoin com táticas populistas e se mostrando decepcionado com a situação. Quatro dias depois, numa mensagem de Back consta o seguinte em tradução livre: “Muito decepcionante, Gavin e Mike”.

Links:

III. Chegando perto

Teorias Alternativas

Enquanto prosseguia na busca por possíveis pistas sobre a identidade real de Satoshi Nakamoto o jornalista testava mentalmente sua tese sobre Adam Back ser Satoshi Nakamoto em alguns momentos de reflexão ao longo dos dias. Uma das pesquisas sobre a possibilidade de Satoshi não ser Back foi feita no livro “The Mysterious Mr. Nakamoto” escrito por outro jornalista, Benjamim Wallace. Não existe uma versão em português à venda no Brasil, mas é possível comprar a versão em inglês. Em Portugal é possível comprar a edição traduzida para o português. Foi lançado em 2025 e traz 15 anos de investigações em busca da identidade verdadeira de Satoshi. Um ponto que o jornalista John Carreyrou, autor deste artigo que estamos comentando por aqui ressalta do livro escrito por Benjamin Wallace aparentemente era a forma diferente como Back e Satoshi enxergavam a questão da privacidade, de forma absoluta na visão de Back e com uma visão mais “frouxa” de Satoshi na criação do Bitcoin. Como contraponto a respeito dessa construção mais frágil da privacidade no Bitcoin John Carreyrou argumenta que Back criou a Blockstream e passou anos propondo inovações no Bitcoin para melhorar a privacidade da rede.

Print parcial retirado em 20 07 2026 de: https://www.amazon.com.br/Mysterious-Mr-Nakamoto-Fifteen-Year-Unmask/dp/0593594029

Em defesa do fato de não ser Satoshi, Adam Back certa vez alegou numa postagem feita no “X”, antigo Twitter que se ele fosse Satoshi não teria feito perguntas triviais na comunidade exclusiva dos desenvolvedores do Bitcoin Core, o canal de IRC #Bitcoin-wizards onde se discutiam ideias para melhorar o software. O jornalista analisou registros de trocas de mensagens feitas na época nesse canal e segundo conclusão dele as interações de Back não eram exatamente “bobas”, pelo contrário mostravam uma grande vontade de corrigir pontos fracos com ideias e sugestões consideradas bastante sofisticadas a ponto de não ser compreendido com facilidade por alguns participantes dessa comunidade focada na correção de problemas de software do Bitcoin.

Print parcial retirado em 20 07 2026 de: bitcoin-development/irc-channels.txt at master · jonatack/bitcoin-development · GitHub

Outro aspecto da personalidade de Back que foi notada pelo jornalista é que Back não gostava das outras criptomoedas chegando a afirmar que gostaria que gostaria de acabar com todas.

E com relação a outros candidatos a Satoshi que estão sempre sendo citados como possíveis Satoshis? O jornalista cita Nick Szabo, hipótese levantada em artigo escrito no mesmo jornal onde esta reportagem foi publicada, o The New York Times em 2015. Szabo propôs a criação de uma criptomoeda parecida com o Bitcoin que ele chamou de “Bit Gold” em 1998 e por algum tempo esteve no topo da lista de candidatos suspeitos. Segundo tese do jornalista, Szabo teria demonstrado desconhecimento de aspectos técnicos básicos do Bitcoin em postagens feitas no “X” sobre uma atualização no Bitcoin Core e teria perdido o posto de maior candidato. Abrindo um parêntese aqui, talvez Nick Szabo não seja exatamente um conhecedor superficial das questões relacionadas ao universo das criptomoedas e blockchains em geral. Por exemplo, Nick Szabo é autor do conceito original dos contratos inteligentes publicado em 1995, portanto antes do lançamento do Bitcoin e foi implementado com sucesso por Vitalik Buterin anos mais tarde no Ethereum. Dois outros nomes já conhecidos da comunidade e que vez ou outra também são citados como candidatos a Satoshi da vida real são: Harold Thomas Finney II, mais conhecido como Hal Finney que faleceu em 2014; e Leonard Harris Sassaman, mais conhecido como Len Sassaman que se suicidou, em 2011. Considerando o sumiço de Satoshi e o falecimento destes dois, existe a suspeita de que um deles poderia ser o verdadeiro Satoshi. Como contraponto para tirar os dois candidatos já falecidos o jornalista cita a aparição de Satoshi em 2015, via e-mail conforme registramos em nossa última postagem com print do cabeçalho do e-mail supostamente enviado por Satoshi, depois que os dois já tinham falecido. Outro nome citado como possível candidato é Peter Todd, ele foi considerado como sendo Satoshi Nakamoto num documentário lançado em 2024 pela HBO chamado de “Money Eletric: The Bitcoin Mystery / Dinheiro Elétrico: O Mistério do Bitcoin” dirigido por Cullen Hoback. Peter Todd aparentemente não gostou nem um pouco dessa “descoberta” apresentada no documentário e negou veementemente que seja Satoshi. O argumento principal do documentário é que Todd supostamente teria corrigido Satoshi ou teria desenvolvido uma linha de pensamentos que teria sido iniciada por Satoshi. O jornalista questiona se alguém tão cuidadoso com sua real identidade teria tido um vacilo tão grande a ponto de continuar desenvolvendo uma ideia que começou sendo apresentada como Satoshi com seu nome verdadeiro. Outro dado citado pelo jornalista para sustentar que Todd não é Satoshi é o fato de Todd ter 23 anos na época em que o whitepaper do Bitcoin foi publicado. Na conclusão deste capítulo o jornalista aborda a questão do Bitcoin ser resultado de uma criação coletiva. Na visão do jornalista John Carreyrou essa teoria não é boa citando a máxima que muitos dizem, se mais de uma pessoa sabe de algo não é segredo. Se o Bitcoin fosse resultado de uma criação coletiva envolvendo várias pessoas certamente uma delas já teria dado com a língua nos dentes, na visão do jornalista.

Este capítulo da reportagem sobre outros candidatos a Satoshi terminou no parágrafo acima. Incluo aqui uma opinião pessoal de quem já gastou algum tempo lendo e postando aqui sobre os eventuais candidatos a Satoshi, admito que é um assunto que também me fascina. Já suspeitei de uns e outros, e talvez pelo fato do último ser mais presente, aparentemente Back tem várias credenciais que apontam para ele. Já achei que o Bitcoin pode ter sido uma criação coletiva, e em certo sentido foi, contou com a ajuda de vários entusiastas principalmente na fase inicial que ajudaram a melhorar o Bitcoin. Talvez a melhor parte venha a seguir já chegando perto do final da reportagem.

Links:

https://medium.com/@bitgolderc/bit-gold-an-introduction-ec1b6fd3c217

https://pt.wikipedia.org/wiki/Contrato_inteligente

Melhor com Código do que com palavras

Nesta altura o jornalista John Carreyrou acreditava que estava no caminho certo e Adam Back era o candidato mais provável, mesmo assim, foi atrás de mais evidências.

Nessa busca por provas, pesquisando nos arquivos da lista de discussão dos Cypherpunks se deparou com um detalhe muito interessante. Numa postagem feita por Satoshi Nakamoto respondendo a um comentário de Hall Finney ele escreveu no original: “I’m better with code than with words though”, em tradução livre: “Eu sou melhor com códigos do que com palavras”.

Print parcial retirado em 27 07 2026 de: https://mailing-list-archive.cryptoanarchy.wiki/

Nas pesquisas o jornalista tinha analisado diversas mensagens trocadas por Adam Back no grupo de Cypherpunks e tinha expressado praticamente a mesmo ideia quando debatia sobre anonimato e liberdade de expressão, a frase de Back era: “Personally I think I’m better at coding, than constructing convincing arguments”. Em tradução livre: “Pessoalmente acho que sou melhor programando do que construindo argumentos convincentes”.

Print parcial retirado em 26 07 2026 de: https://mailing-list-archive.cryptoanarchy.wiki/

Quanto mais analisava os escritos de Back e as comparava com as de Satoshi Nakamoto, mais semelhança o jornalista encontrava.

Uma característica da escrita de ambos é que os dois usavam dois espaços entre as frases, uma prática que é comum em pessoas com mais idade, Adam Back está na casa dos 55 anos e Satoshi poderia ter mais de 50 anos.

O jornalista se apega a outro aspecto mais específico. Satoshi usava a expressão britânica “bloody” quando queria reclamar da dificuldade que tinha para expor sua visão do Bitcoin para o público em geral nas suas mensagens postadas no fórum Bitcointalk. Adam Back, que nasceu e cresceu na Inglaterra sempre negou que tivesse usado essa palavra nas suas manifestações, sugerindo até pesquisas no Google para comprovar esse fato. No entanto, como jornalistas não desistem facilmente, numa mensagem do ano de 1998 postada por Back consta a palavra “bloody” expressando irritação com anúncios em banners na internet. Naquela época a internet era acessada via modem discado com largura de banda de 28,8 kbps, equivalente a 0,0288 Mbps. Com essa velocidade um arquivo de 10MB demorava cerca de 45 minutos para ser baixado. Hoje em dia fazer o download de um arquivo desse tamanho demora algo na casa dos 0,2 ou 0,3 segundos.

A pedido de Benjamin Wallace, autor do livro “The Mysterious Mr. Nakamoto: A Fifteen-Year Quest to Unmask the Secret Geniuos Behind Crupto”, que é citado no tópico anterior, o linguista computacional da École Nationale des Chartes, Florian Cafiero tentou sem sucesso identificar Satoshi através da escrita, num processo chamado de estilometria. O jornalista pediu novamente ao pesquisador Cafiero para fazer uma nova tentativa, que ele aceitou. No trabalho anterior os documentos analisados eram em grande parte textos escritos em parceria com outros autores. Neste novo trabalho foram selecionados apenas textos de Adam Back, principalmente o whitepaper do Hashcash e sua tese de doutorado. Além de textos de Adam Back o pesquisador francês juntou textos de outros 11 candidatos a Satoshi, tais como Hall Finney, Nick Szabo e Len Sassaman entre outros. Os textos foram comparados com o texto do whitepaper do Bitcoin. Para o pesquisador Francês, Adam Back seria o candidato mais próximo, mas Hall Finney estava quase empatado e a diferença entre os dois era quase imperceptível deixando o resultado inconclusivo. Diante da decepção do jornalista o pesquisador Francês refez os testes fazendo ajustes na forma de cálculo e o resultado foi ainda mais decepcionante, desta vez Back ficou bem longe tendo ficado atrás de vários outros candidatos.

Esse período de quase certeza sobre a identidade de Satoshi Nakamoto até a decepção com o resultado dos testes matemáticos aplicados na escrita dos candidatos a Satoshi comparado com o texto do whitepaper durou cerca de oito meses, e praticamente devolveu o jornalista a estaca zero.

Links:

Ortografia e Gramática

Apesar do resultado da análise feita pelo especialista Sr. Cafiero (conforme relatado na última postagem) não ter sido tão promissor como esperava o jornalista, ele não desistiu. Com base num tweet de 2020 Adam Back descreveu a escrita de Satoshi como “concisa e focada” indicando que Satoshi poderia ter se prevenido contra eventuais análises posteriores da sua escrita para fins de identificação. Fazendo um comentário pessoal, para além do fato de que Satoshi realmente pode ter tomado este tipo de precaução, em princípio parece que a maior preocupação de Satoshi não era a busca feita por jornalistas e sim dos órgãos do governo. Na conclusão do jornalista os dois, Back e Satoshi mostravam ter conhecimento do processo de estilometria. Para sustentar sua tese o jornalista relata, por exemplo, que Back teria escrito em 1998 que mesmo o uso de pseudônimos não garantia o anonimato se houvesse textos escritos com os nomes reais para fins de comparação. Back chegou a sugerir a criação de um sistema de escrita onde algumas frases seriam escolhidas num menu pelo método de múltipla escolha com substantivos, verbos e adjetivos afirmando que assim seria muito mais difícil identificar idiossincrasias (característica, mania ou comportamento peculiar) de um escritor.

Print parcial retirado em 04 08 2026 de: Adam Back no X: “@_drgo @MistuhBailey @DTYME83 That could be why Satoshi’s writing style is concise and focussed. Minimise emotive flourishes, extraneous adjectives and off topic chit-chat to reduce stylometry risk.” / X

Sem desistir da tentativa de comprovar que Back é Satoshi Nakamoto o jornalista focou sua abordagem na ortografia e na gramática da escrita de ambos. Em princípio a escrita dos dois não tinha nada em comum. Back cometia muitos erros provavelmente por causa da digitação apressada, era prolixo e desorganizado nos textos publicados nas listas de discussão dos Cypherpunks. Já Satoshi era preciso e raramente cometia erros de digitação. O jornalista diz ter lido todos os documentos conhecidos cuja autoria é atribuída a Satoshi e leu mais de mil textos assinados por Back e afirma que encontrou alguns detalhes da escrita compartilhado por ambos.

Um desses detalhes específicos notados pelo jornalista é confundir “it’s” (está, é) com “its” (seu, sua, dele, dela). Outro detalhe é o uso da palavra “also” (também) no final das frases. Ao menos cinco textos com esses detalhes foram identificados na escrita dos dois. Outro detalhe que tanto Back como Satoshi compartilham ao escrever é uma certa dificuldade com os hífens. Ora eram usados quando não eram necessários e estavam ausentes quando deveriam ser usados. Ainda com relação aos hífens, ambos usavam em certas frases e outras vezes não usavam, por exemplo: ora escreviam “e-mail” e ora escreviam “email” ou “off-line” e “offline”. Outra semelhança é que algumas vezes ambos escreviam certa palavra por extenso e outras vezes de forma abreviada, por exemplo: “eletronic cash” e “e-cash”.

Outro detalhe identificado pelo jornalista é o uso de palavras específicas da língua britânica por parte de Satoshi. Back era cidadão britânico e seria natural que fizesse uso do vocabulário britânico na sua escrita. Um exemplo dessa mistura é que ambos escreveram textos misturando a escrita da palavra “check” com a escrita britânica “cheque”.

Munido de uma lista de detalhes da escrita que o jornalista entendia como sendo comuns a Back e Satoshi ele procurou um especialista em linguística forense chamado Robert Leonardo, da Universidade de Hofstra, uma universidade privada localizada no estado de Nova Iorque. O especialista chamava esse tipo de detalhe como “marcadores de variação sociolinguística”, em outras palavras seriam como impressões digitais linguísticas capazes de indicar a origem social, formação profissional e até mesmo a região de origem do autor de um texto.

O primeiro marcador era a escrita de “proof of work” (prova de trabalho) que pelas regras gramaticais não é escrita com hífen, por ser um substantivo composto. No whitepaper do Bitcoin esta palavra está escrita com hífens (proof-of-work). Varrendo as postagens nas listas de discussão dos grupos Cypherpunks e Cryptograph o jornalista identificou oito usuários que escreviam “proof of work” com hífens. Outro filtro usado pelo jornalista foi buscar usuários que tinham mencionado uma moeda online russa chamada WebMoney nas postagens levando em consideração que Satoshi tinha feito referência a esta moeda russa em uma de suas postagens. Entre os usuários das duas listas de discussão apenas um nome coincidia nos dois casos: Adam Back.

O segundo marcador listado pelo jornalista foi o uso da palavra “partial pre-image” por Satoshi Nakamoto na lista de discussão do grupo Cryptography falando sobre mineração de Bitcoin. Apenas duas outras pessoas tinham usado esta palavra específica em postagens no grupo Cryptography: Hall Finney e Adam Back. No entanto, Finney escreveu “preimage” enquanto Back usava hífen, como Satoshi.

O terceiro marcador foi a expressão “burning the money” (queimar dinheiro) usada por Satoshi quando falou sobre destruição de bitcoins. Apenas uma pessoa tinha usado esta expressão em 1999 discutindo a possibilidade de queimar criptomoedas , esta pessoa era Adam Back.

De 34.000 para um

Ainda focado no estudo dos textos de Satoshi o jornalista pediu ajuda para Dylan Freedman, um colega do jornal que tinha experiência em análise computacional de textos.

O jornalista tinha uma certeza, que Satoshi fazia parte de algumas comunidades online baseadas em listas de discussão: Cypherpunks, Cryptography e Hashcash. O whitepaper do Bitcoin foi apresentado para a comunidade Cypherpunk e o Bitcoin incorporava tecnologia que estava presente no Hashcash. Com base nessas coincidências decidiram coletar arquivos disponíveis dessas três comunidades num único bando de dados.

O primeiro passo foi excluir os usuários que nunca tinham discutido dinheiro digital, após essa peneirada restaram 620 pessoas que tinham escrito mais de 134 mil mensagens. Com base nesse acervo e usando um método alternativo o objetivo era alcançar um resultado positivo onde a estilometria do Sr. Cafiero não tinha chegado numa conclusão positiva. A ideia era buscar todas as palavras usadas nas mensagens de Satoshi que não possuíam sinônimos e comparar com as mensagens dos 620 usuários que estavam na lista de possíveis candidatos a Satoshi. As palavras sem sinônimos não podem ser facilmente substituídas e dificultam o eventual uso de alguma ferramenta como frases construídas com recursos de múltipla escolha.

O resultado foi animador, Adam Back pulou para o topo da lista com o uso de 521 palavras sem sinônimo que também constavam nas mensagens de Satoshi sendo que Back tinha uma quantidade menor de mensagens em comparação com outros membros da lista de discussão. Adicionalmente foi realizada análise dos erros de hifenização cometidos por Satoshi com base na hifenização correta do manual de estilo do The New York Times. Com ajuda de uma IA que varreu os textos de Satoshi foram encontrados 325 erros de escrita em palavras com hífen. Comparando com os textos dos 620 supostos Satoshis novamente Adam Back apareceu no topo da lista compartilhando 67 erros de hifenização idênticos aos erros de Satoshi. O segundo usuário tinha errado 38 vezes. Outro filtro aplicado na comparação dos textos foi uma característica da escrita, o uso de dois espaços entre as frases. Do total de 620 usuários 58 não usavam dois espaços entre as frases, restando 562 candidatos. Outro pente fino focou no uso de palavras britânicas que reduziu a lista de candidatos para 434. O próximo aspecto analisado que reduziu a lista para 114 candidatos foi a troca de “it’s” e “its”. O uso da palavra “also” no final da frase que era uma característica de Satoshi reduziu a lista de candidatos para 56. Esse número foi reduzido para 20 eliminando os candidatos que escreviam “bug fix” separado e “halfway” e “downside” junto. Excluindo quem escrevia corretamente os adjetivos compostos “noun-based” e “file-sharing” e não usava hífen na palavra “double spending” a lista foi reduzida para oito supostos candidatos. O filtro final aplicado nas mensagens desses oito supostos Satoshis consistiu na verificação dos suspeitos que escreviam algumas palavras de uma forma ou de outra alternando a escrita entre as formas diferentes: “e-mail” e “email”, alterando entre extenso e abreviado: “e-cash” e “eletronic cash”, misturando escrita americana e britânica: “cheque” (britânica) e “check” (EUA), “optimize” (EUA) e “optimise” (britânica).

No final, após a aplicação de todos esses filtros, sobrou apenas um único nome: Adam Back.