Ao longo da minha vida profissional que durou exatos 35 anos trabalhando em alguns bancos pequenos, médios e grandes ouvi uma frase que vinha de alguns chefes, do pessoal da Segurança da Informação e dos desenvolvedores entre outros. A frase com algumas variantes é mais ou menos a seguinte: “o problema está na peça que fica em frente ao monitor/teclado”. Nos tempos atuais dominado pelas IAs a “peça” talvez já não seja um ser humano. Nos meus tempos de labuta era mais fácil entender que em boa medida a frase reverberava a nossa humanidade. Tudo que é feito por um ser humano, por mais qualificado que o ser humano seja, está sujeito a falhas ou erros. Não tenho pretensão de elaborar uma tese sobre os erros cometidos pelos humanos por muitos motivos, alguns inconfessáveis, mas principal delas é o tamanho do desafio, muito maior do que as minhas modestas capacidades intelectuais.
A matéria da Cointelegraph “Binance aponta laptop hackeado de engenheiro como origem de ataque de USD 6,3 bilhões” publicado em 29/10/2026 assinado por Felix Ng tem o seguinte subtitulo: “A Binance diz que invasores podem ter usado um laptop comprometido de um engenheiro de DevOps para acessar a infraestrutura interna”. (O negrito é nosso).
Antes de prosseguirmos vamos esclarecer o que é DevOps porque não falamos para convertidos. De acordo com definição da IBM “DevOps é uma metodologia de desenvolvimento de software que acelera a entrega de aplicações e serviços de alto desempenho ao combinar e automatizar o trabalho de equipes de desenvolvimento (Dev) e operações de TI (Ops)." Em resumo, equipes que antes trabalhavam em áreas separadas, um desenvolvendo e outro cuidando do funcionamento do sistema foram reunidas para trabalharem juntas do início até o fim do processo com objetivo de reduzir conflitos e atrasos.
Até o momento em que estamos fazendo esta postagem a investigação está em curso. Como consta no subtítulo da matéria da Cointelegraph os invasores “podem” ter usado um laptop comprometido. Outro aspecto investigado é o vazamento de chaves ou comprometimento do sistema de assinaturas sem necessidade de usar chaves.
Do total de 6,3 bilhões de dólares comprometidos a Binance diz que conseguiu congelar cerca de 3 bilhões on-chain, montante que pode ser exclusivamente de stablecoins, bloqueando as transferências nos Blockchains (possivelmente são 4 Blockchains). A respeito dessas movimentações a empresa Chainalysis reportou ter visto padrões de lavagem (mixing ou tumbling) nunca vistos antes. Foram realizadas milhares de transações em pouco tempo sugerindo que possívelmente o processo de movimentação entre diversas contas foi automatizado. De acordo com a TRM Labs o ataque pode ter levado 18.270 bitcoins (em torno de USD 1,5 bilhão), mais de 420 mil Ethers (em torno de USD 925 milhões) e perto de USD 2.5 bilhão em outras criptos e um montante não informado de stablecoins como USDC e USDT (, com base nos outros desvios seria algo em torno de USD 1,5 bilhão).
A Binance é a maior corretora de criptos do mundo, foi fundada por ChangPeng Zhao, mais conhecido como CZ. Os ativos sob gestão da Binance estão estimados na casa dos USD 135 bilhões. A empresa informou que parte do desvio foi recuparado e já reservou de cerca de USD 6.3 bilhões para cobrir o desvio.
De acordo com Ben-Natan, citado no artigo da Cointelegraph que é cofundador e CEO da Blockaid, empresa que atua no segmento de segurança no universo das criptomoedas existe bastante semelhança entre o ataque sofrido pela Binance com outro ataque sofrido pela Bybit em fevereiro de 2025, quando as credenciais de um desenvolvedor da Safe (carteira cripto) foram usadas para acessar o sistema do provedor da carteira realizando transações indevidas de mais ou menos USD 1,5 bilhão.
As investigações ainda estão em curso e no atual estágio não é possível atribuir a autoria do ataque aos grupos hackers norte coreanos. De acordo com o FBI o roubo de 1.5 bilhão de dólares sofrido pela Bybit teria sido executado pelo grupo hacker norte coreano conhecido como TraderTraitor.
Voltando ao parágrafo inicial, em muitos casos, o problema geralmente está na peça que não é mecânica, é humana sujeito a falhas.
O trecho a seguir é uma visão linear do ataque que foi criada pela IA do Google, o Gemini.
A investigação preliminar da Binance aponta que o comprometimento do laptop do engenheiro de DevOps funcionou como ponto de entrada inicial para a invasão que resultou em saques não autorizados de cerca de US$ 6,3 bilhões.
O processo ocorreu das seguintes formas principais, segundo os comunicados da empresa e análises de segurança:
• Acesso a contêineres de serviço: O invasor obteve controle do computador do profissional e usou esse acesso para alcançar um contêiner de serviço interno da infraestrutura da Binance.
• Execução de transações e manipulação: A partir desse ambiente interno, os criminosos conseguiram enviar ordens e transações de retirada de ativos (sem que houvesse, contudo, indícios de vazamento direto das chaves privadas das carteiras digitais).
• Processo complexo e combinado: A própria liderança da Binance (como o co-CEO Richard Teng) ressaltou que não foi uma ação isolada de um único clique ou baseada apenas nas permissões isoladas de um funcionário; o ataque envolveu um encadeamento técnico mais complexo e múltiplos vetores ou dispositivos.
• Preparação prévia na blockchain: Empresas de análise forense (como a TRM Labs e a Blockaid) identificaram que os invasores planejaram a operação com antecedência — incluindo testes com códigos maliciosos e o agrupamento de autorizações (como via EIP-7702) para drenar tokens de forma simultânea.
O artigo completo bem como outras fontes sobre esta matéria seguem abaixo:
Para quem tem estômago forte uma extensa postagem sobre ataques hackers: