Toshiba pode ser uma ameaça a rede bitcoin?

Olá Senhores/as

Recentemente li uma publicação do TECMUNDO, mencionando a gigante japonesa TOSHIBA.
A publicação refere-se a um algoritmo baseado em computação quântica chamado Algoritmo de Bifurcação Simulada. Com ele seria possível “calcular oportunidades de arbitragem com moedas em microssegundos”. Vou deixar os linkins anexados a esta publicação e gostaria da opinião de vocês para seguinte questão:

Essa algoritmo pode ameaçar a rede bitcoin ou qualquer outra rede ?

LINKS:

“SBM - Simulated Bifurcation Machine” (Máquina de Simulação Bifurcada ou algo parecido), em breve num computador perto de você, tipo exterminador do futuro. Ave maria, Deus nos proteja e fuja enquanto pode. A resposta foi dividida em duas partes. Segue a primeira. Respondo objetivamente a pergunta na próxima postagem.

Parte Um - Introdução

Este tópico requer um(a) especialista em física, de preferência alguém com muito conhecimento de mecânica ou física quântica. Para quem fugiu das matérias de exatas e se escondeu na área de humanas é um verdadeiro teste de sanidade mental com alta probabilidade de queimar o “fusível” dos poucos neurônios que ainda estão funcionando ou fingem que trabalham. Mesmo assim, nesta etapa da vida, um dos ativos que ainda me resta é o tempo e se o tempo é um ativo resta investir em algo que ofereça pelo menos um resultado minimamente positivo. Feita esta ressalva vamos nos aventurar no assunto deste tópico, já avisando que é uma grande viagem pelo mundo da física (Ernest Ising, um físico alemão e sua tese sobre magnetismo, computadores quânticos, modelos adiabáticos, cálculo hamiltoniano não linear etc.).

Vamos começar transcrevendo um tópico chamado “Discussion” do artigo cujo título é “Combinatorial Optimization by Simulating Adiabatic Bifurcations in Nonlinear Hamiltonian Systems” (algo como Otimização Combinatória através da Simulação de Bifurcações Adiabáticas em Sistemas Hamiltonianos Não Lineares) publicado pelos criadores do “SB - Simulated Bifurcation” Hayato Goto, Kosuke Tatsumura e Alexander R. Dixon que roda em Linux e está na versão 1.2.2 disponível na AWS- Amazon Web Service ao módico custo de USD 3,06 por hora para os interessados desenvolverem aplicações (fica a dica para quem quer atacar a rede Bitcoin) e realizarem PoC - Proof of Concept (Prova de conceito) que nada mais é do que testar o “conceito ou teoria” na prática para ver se realmente faz ou cumpre o que promete, ou seja, se o resultado obtido é igual ao resultado indicado conceitualmente por quem desenvolveu a teoria.

DISCUSSION

“We have proposed a new heuristic algorithm for the Ising problem, which we call SB, inspired by quantum adiabatic optimization using a nonlinear oscillator network . Exploiting the advantages of SB, such as simultaneous updating and simple calculations, we have realized an ultrafast all-to-all connected 2000-spin Ising machine based on SB using a single FPGA, which is about 10 times faster than a state-of-the-art CIM. We have also solved an all-to-all connected 100,000-node MAX-CUT problem with continuous weights using a GPU-cluster SB machine, which is about 10 times faster than our fastest SA. We found that the computation speed of the GPU-cluster SB machine is limited by the memory bandwidth of each GPU (see the Supplementary Materials). This indicates that hardware devices with broader memory bandwidths specially designed for SB, such as application-specific integrated circuits or multi-FPGA systems, will substantially improve the performance. The mechanism of SB is based on adiabatic and chaotic (ergodic) evolutions of the nonlinear Hamiltonian system. We have discussed the mechanism using simulation results of a simple model. The mechanism of SB seems to be related to adiabatic invariants of classical integrable systems (36, 40, 45, 46) and also ergodic adiabatic invariants of classical nonintegrable systems (47–49). The mathematically rigorous treatment of the mechanism using these concepts is left for future work. Another interesting direction of research is to extend SB to thermal states at finite temperature, e.g., using the Nosé-Hoover method (36), which will relate SB to nonequilibrium statistical mechanics (50).” (obs.: os negritos são as partes que transcrevemos abaixo em português ) extraído de: https://advances.sciencemag.org/content/5/4/eaav2372

Destacamos duas frases, em nossa modesta tradução tabajara, que dizem mais ou menos o seguinte:

Propusemos para discussão um novo algoritmo heurístico para o problema de Ising, que chamamos de SB, inspirado na otimização adiabática quântica usando uma rede de osciladores não lineares.”

“O mecanismo do SB é baseado em evoluções adiabáticas e caóticas (ergódicas) do sistema Hamiltoniano não linear.”

Não sou programador nem físico e tive que pesquisar algumas coisas para tentar entender um pouco do que consta no texto acima. Já começo trazendo a definição de algoritmo voltado para computação que consta no site infopedia: “Algoritmo é uma sequência ordenada, definida e finita de ações que visam a solução de um determinado problema computacional. Em suma, o problema contém um conjunto de dados de entrada (input) e o algoritmo, na sequência das ações resolventes, produz os dados de saída (output)” em: https://www.infopedia.pt/$algoritmo-(informatica).

Quando acrescentamos a palavra heurístico como consta no artigo significa que a solução oferecida pelo algoritmo heurístico tenta resolver problemas sem barreiras de tempo na sua execução. Ou seja, um algoritmo heurístico não cumpre todas as regras da definição clássica de um algoritmo de computação (solucionar um determinado problema de forma eficiente e num espaço de tempo pelo menos aceitável). Aqui deve ter ficado claro que um algoritmo simples entrega uma solução melhor do que um algoritmo heurístico. A heurística pode ser usada quando não há um jeito de resolver algum problema simplesmente usando os procedimentos comuns de programação ou quando existe esse jeito de resolver o problema com exatidão, mas o tempo gasto para “rodar” o algoritmo torna o processo inviável. Lembrando que um algoritmo precisa entregar a solução de um problema dentro de um espaço de tempo aceitável. Sobre vantagens, desvantagens e tipos de algoritmo ver páginas 17 e 18 em: http://www.dep.ufscar.br/docentes/vitoria/ENP183%20-%202010/Introducao(1).pdf

Depois de entender o que é um algoritmo heurístico temos que tentar entender o que é o problema de Ising. Ernest Ising foi um físico alemão que apresentou na sua tese de doutorado estudos sobre magnetismo. O tema da tese foi sugerido pelo professor Wilhelm Lenz como um problema a ser resolvido, daí surgiu a expressão problema de Ising (se vira aí com esse abacaxi da física na sua tese de doutorado). Meus conhecimentos são muito limitados para qualquer aventura sobre este tema, mas me parece que o Ising conseguiu simplificar algo que era complexo num modelo binário e aplicável no campo da estatística. Ising descobriu que estatisticamente falando, pedaços de informação, interagindo aos pares, produzem efeitos coletivos. Abrindo um parêntese, em 2016 pesquisadores americanos e japoneses desenvolveram um tipo de computador combinando tecnologia óptica e laser para tentar resolver problemas que computadores tradicionais não conseguem enfrentar. Os testes iniciais em 2016 mostraram que esse “computador de laser” estava aquém dos computadores tradicionais e não encontrei notícias sobre o desenvolvimento deste equipamento após 2016 . Vale deixar registrado que o laser e física quântica tem tudo a ver e que os meus dois neurônios já fritaram.

Quem ainda estava acordado ao ler o trecho final do texto acima percebeu a palavra “quântico” na frase. Isso remete a questão para o terreno da computação quântica. Primeiro é preciso saber que não existe um modelo padrão de computador quântico.

A empresa canadense D-Wave usa uma técnica chamada de “quantum annealing” (recozimento quântico) para criar processadores quânticos adiabáticos. Lembrando que a palavra adiabático consta no texto transcrito acima. Seu objetivo é construir e vender computadores quânticos (a fabricante de aviões Lockhead e a Nasa são clientes da D-Wave). Custa em torno de 15 milhões de dólares.

Por outro lado, a IBM desenvolve computadores quânticos baseado no modelo padrão ou clássico, também chamado de modelo circuito. O modelo IBM é chamado de circuito porque é construído usando circuitos lógicos, também chamados de portas lógicas, mesmo conceito usado na construção dos computadores atuais. É considerado uma evolução deste modelo atual de construção de computadores. Abrindo um respeitoso parêntese: o termo porta tem a ver com entradas e saídas (not, and e or) sendo que sempre haverá uma única saída sendo possível uma ou mais entradas. Entradas e saídas sempre serão binárias 0 e 1. A IBM desenvolve computadores quânticos para alugar sem intenção de comercializar. O modelo da empresa D-Wave é chamado de quantum analógico e o modelo da IBM de quantum digital.

O modelo Google é híbrido sendo baseado na junção ou mescla dos modelos IBM (circuito) e D-Wave (adiabático). O que parece novidade no caso da Google é o uso de supercondutores na construção do equipamento.


Fonte: https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/10/03/a-era-dos-qubits/

Com as questões acima na mesa o que fica claro é que estamos vendo uma espécie de progresso em campos distintos no ramo da computação. De um lado IBM, D-Wave e Google estão focando seus esforços no desenvolvimento de computadores complexos, chamados de quânticos, capazes de realizar processamento de dados numa escala que é inviável com os computadores atuais. Correndo em outra pista pesquisadores da Toshiba criaram um algoritmo que também pode realizar processamento de dados em escala muito acima das que são oferecidas pelos computadores atuais. Resumindo, IBM D-Wave e Google estão focadas em hardware e a Toshiba está focada em software. São soluções distintas, já criadas que estão em estágio inicial, mas que certamente são muito promissoras, em termos gerais. Mas é bom lembrar que nem todas as novas ideias ou avanços se concretizam, como citei anteriormente, em 2016 foi construído o computador de laser que homenageou Ising tendo sido chamado de máquina de Ising que até agora não decolou como conceito tecnológico, tendo sido superado pelos computadores quânticos que recebem atenção de grandes empresas como Google e IBM.

De toda essa viagem quais são as fotografias que gostamos? Vamos criar uma espécie de “stories” tentando resumir todo esse emaranhado de “coisas” em três fotografias.

  1. Vemos um produto (software) criado por uma grande empresa japonesa (Toshiba) que pretende vender essa solução para interessados com o diferencial de “rodar” em computadores comuns;

  2. Dando um “zoom” vemos um produto que oferece solução para problemas complexos existentes em diferentes ramos tais como a ciência (pesquisa e desenvolvimento de remédios), finanças (otimização de portfólio de investimentos), logística (escolha de rotas e otimização de trânsito em grandes cidades), etc.;

  3. Com auxílio de uma lente “superzoom”, no detalhe, enxergamos um algoritmo heurístico baseado em mecânica quântica e magnetismo (problema de Ising) criado para tratar dados probabilísticos e que entrega um resultado possível escolhidos entre vários outros resultados também possíveis, que é a tal da otimização combinatória que minimiza a explosão exponencial do tempo de cálculo gasto pelo algoritmo se não for estabelecido uma região factível (se isso não for feito uma demarcação ou limitação de parâmetros o resultado é praticamente um loop infinito em computadores atuais, ou a quebra do equipamento).

Links:

Supercomputadores :

Computadores Quânticos;

https://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=ibm-lancara-computador-quantico-comercial&id=010150170308#.XihpGCHPy70

https://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=google-revela-primeiros-detalhes-seu-computador-quantico&id=010150160610#.XihsVyHPy71

Máquina de Ising ou Computador de Laser:

https://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?ar

Paper do Projeto SBM:

Artigos sobre uso do SBM:

Vídeo sobre “fakes” envolvendo física quântica, afinal não é só no mundo dos criptoativos que existem os aproveitadores e os incautos (um não existe sem o outro).

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Parte Dois - Quais são as aplicações de um SBM?

Alguns exemplos de aplicação desta tecnologia citados pela Toshiba são: logística (otimização de rotas), finanças (otimização de portfólio de investimentos) e ciência (desenvolvimento de medicamentos).


Fonte: https://www.toshiba-sol.co.jp/en/pro/sbm/index.htm

Até aqui não há novidade. Se olharmos as possíveis aplicações do computador quântico da IBM encontramos as seguintes aplicações: fornecimento e logística, serviços financeiros, inteligência artificial, segurança na nuvem, pesquisa de novos materiais na física/ química e desenvolvimento/descoberta de novos remédios. https://www.tecmundo.com.br/computacao-quantica/114833-ibm-lanca-primeira-plataforma-comercial-computacao-quantica-mundo.htm

A aplicação na logística, de certa forma, é natural. Quem estuda logística deve conhecer um problema clássico chamado problema do caixeiro viajante. Partindo de um determinado local e tendo que voltar ao mesmo local de partida qual será a melhor rota considerando que o caixeiro viajante deve visitar vários locais. Quanto maior for o número de locais a serem visitados maiores serão as possibilidades de rotas (crescimento exponencial das alternativas). Um algoritmo simples não conseguirá determinar a melhor rota sem consumir muito tempo de processamento. Dependendo da quantidade de locais torna-se inviável fazer o cálculo pela demora ou até mesmo pela impossibilidade de se obter um resultado aceitável. A tecnologia SBM pretende oferecer uma solução para esse problema, entregando uma boa rota, dentre várias outras possíveis e que também podem ser rotas boas, consumindo um tempo aceitável para fazer esse cálculo.

Conforme vídeo citado na postagem anterior, os grandes supercomputadores são encontrados onde mesmo? Em centros de pesquisas e/ou universidades. https://www.youtube.com/watch?v=jz4Mtg-ZbAA. É natural que estudos, pesquisas e experimentos consumam grande capacidade de processamento de dados para realizar cálculos matemáticos. Abrindo um parênteses, pesquisas que consumiriam até milhares de anos sendo processados em computadores isolados são acelerados/adiantados para alguns anos com uso ou melhor de empréstimo de poder computacional ocioso de empresas e mesmo de usuários domésticos. A exemplo da rede P2P do Bitcoin o sistema funciona da mesma forma, criando uma rede P2P voltado para ajudar no processamento de pesquisas científicas. Um projeto de pesquisa de genoma apoiado pela WCG https://www.worldcommunitygrid.org . que levaria 100 anos para ser concluído demorou apenas oito meses. Existem vários outros “cases” até no Brasil que são apoiados neste conceito, como alguns projetos do Sprace da Fapesp de São Paulo. https://sprace.org.br .

Finalmente vamos ao que interessa que é tentar responder a pergunta de um milhão de bitcoins desta postagem. Afinal de contas esse algoritmo desenvolvido por pesquisadores da Toshiba pode acabar com o bitcoin (ameaça a rede)? Uma das aplicações possíveis desta tecnologia é no campo das finanças. Talvez focado em arbitragem de moedas, que por sinal, não é permitido/legalizado no Brasil. E o que é arbitragem no mundo financeiro afinal de contas? Qualquer ativo negociável, em tese, pode ser objeto de arbitragem. Se você olha o preço de um determinado ativo em vários locais diferentes (por exemplo corretoras de bitcoin) vai ver que o preço em cada uma delas não é exatamente igual. Vai haver uma variação que pode ser na casa dos centavos entre as várias corretoras. No processo chamado de arbitragem você vai comprar naquela que estiver mais barata e vai revender logo em seguida naquela onde o preço está mais caro. Seu lucro está na diferença entre o preço de compra e venda menos os custos. Como os preços costumam variar na casa dos centavos, para obter lucro é preciso operar o tempo todo e com valores elevados, é assim que eu vejo o mercado de arbitragem. Para aproveitar essa diferença de preços velocidade e agilidade é essencial, a transação tem que ser feita antes que os preços mudem ou até mesmo se invertam. Existem diversos tipos de operações que são chamados de arbitragem e que eu sinceramente não sei dizer se são ou não arbitragem sob o aspecto técnico. Independente disso todo tipo de arbitragem tem riscos, seja pela velocidade que as operações exigem ou pelos ativos envolvidos. Exemplo: existem investidores que fazem arbitragem de ações entre o mercado à vista e o mercado futuro. Sob o aspecto da arbitragem não me parece que a tecnologia SBM possa causar algum tipo de transtorno para a rede Bitcoin ou mesmo para qualquer outra rede de criptoativos. É fundamental observar que arbitragens no fundo são transações de compra e venda, tem alguém vendendo e alguém comprando. Cada transação gera resultado financeiro para pessoas físicas e financeiro mais contábil para pessoas jurídicas. Se o sistema de arbitragem simplesmente faz operações de compra e venda sem gerar reflexos financeiros e/ou contábeis não é confiável. Como este tipo de operação não é legalizado no Brasil fica a dica. Qualquer alocação de recursos neste tipo de operação é por conta e risco de quem se se arrisca nessa seara. O sistema Bitcoin ainda tem uma questão de escala, aqueles dez minutos em média que uma operação demora para ser confirmada pelos mineradores. De que adianta ter um algoritmo capaz de realizar milhões de operações por minuto se o próprio sistema Bitcoin não confirma as transações nessa velocidade? Se alguém diz que faz centenas de operações de compra e venda de bitcoins por minuto existe algo a ser verificado nesta história. Por isso, sob este aspecto não me parece razoável que a tecnologia SBM ofereça risco a rede Bitcoin ou a outras redes em geral.

O cerne da questão com relação ao surgimento de um algoritmo capaz de realizar processamentos em larga escala que não são possíveis com base nos programas e equipamentos atualmente disponíveis está na criptografia. Na minha visão tornar o Bitcoin obsoleto ou sem utilidade depende da possibilidade ou não de quebrar a criptografia do sistema. Se alguém quiser “atacar” a rede Bitcoin precisará de muito, muito poder computacional para realizar processamento em altíssima escala dos blocos já minerados, fazendo as “alterações” maliciosas nos blocos já minerados e reintroduzindo as mesmas na cadeia de blocos existentes. Lembrando que os nós procuram sempre a cadeia mais longa, mais adotada pelos demais nós e que seria a mais confiável. A brincadeira aqui não admite desvios nem aproximações, os cálculos precisam ser exatos para serem aceitos e confirmados pelos demais nós. Esse jogo recomeça a cada dez minutos em média, ou seja, a cada dez minutos aumenta um bloco a mais para ser “alterado” pelo atacante, que ainda precisa convencer os demais nós de que o seu bloco “alterado” é o válido. Para entender essa questão da cadeia de blocos sugiro o vídeo abaixo que explica de forma simples como se forma a cadeia de blocos e porque não basta simplesmente alterar uma ou mais transações dentro de um bloco para fazer uma “fraude” do tipo reverter uma transferência de bitcoin.

Além disso existe a questão do ajuste da dificuldade na mineração. Se por acaso entrar na rede Bitcoin um ou mais mineradores/computadores capazes de realizar a mineração de forma muito rápida o sistema vai detectar e vai aumentar a dificuldade. O inverso também ocorre, se muitos mineradores desligarem suas máquinas diminuindo a capacidade e aumentando o tempo de mineração para um tempo acima da média de dez minutos o sistema vai diminuir a dificuldade para trazer o tempo para a média. Pode até ocorrer alguma ação maliciosa com algum prejuízo por algum tempo, mas o sistema vai se ajustar.

Com base no que eu entendi da tecnologia SBM ela vai atuar num universo de múltiplas variáveis usando conceitos da física clássica e quântica para otimizar a busca por um resultado possível dentro de vários outros resultados possíveis, a grosso modo uma espécie de escolha menos pior ou mais próxima do que seria o resultado exato, entre vários outros resultados possivelmente certos. Me parece que a tecnologia não acerta no c. da mosca, talvez acerte com precisão na própria mosca, mas não naquele lugar específico. Neste sentido o cálculo do “hash” e do “nonce” não aceitam aproximações ou resultados dentro de uma margem, mesmo que seja mínima, o resultado tem que ser exatamente aquele esperado. O tiro tem que ser certeiro naquele lugar sem desviar um milímetro. Se a tecnologia SBM não consegue oferecer exatamente o resultado esperado e sim aproximações possivelmente certas entre várias outras me parece que não conseguirá quebrar a criptografia nem reconstruir cadeia de blocos em dez minutos. Nas palavras dos criadores, com grifo nosso: “…a máquina SB pode obter boas soluções aproximadas de um problema…”


Fonte: https://advances.sciencemag.org/content/5/4/eaav2372

Mesmo assim, se por acaso houver algum risco para a rede, me parece que a adoção do sistema “PoS - Proof of Stake” pode ser uma contramedida já que muda de forma significativa o processo de competição entre os mineradores. Todavia como é uma novidade e ainda está sendo oferecida para realização de PoC (prova de conceito) ainda não dá para cravar que não trará nenhum risco, no máximo apostaria um café expresso. A implementação do PoS, entre outras finalidades, permite que a mineração possa ser feito em computadores comuns, saindo da esfera das máquinas ASIC que são construídas especialmente para mineração, existindo modelos construídos especificamente para mineração de bitcoin e modelos feitos especificamente para mineração de ethereum, segue o link da postagem: Istambul será o Próximo Hard Fork do Ethereum.

Uma coisa é certa, os japas lá da Toshiba não criaram essa tecnologia pensando em quebrar a rede Bitcoin ou mesmo qualquer outra rede. Querem oferecer uma tecnologia capaz de resolver problemas reais que melhorem a vida das pessoas, essa é uma das coisas belas da ciência, melhorar nossa vida. Sempre poderá existir alguém capaz de se apropriar de coisas/invenções boas para praticar crimes. Os primeiros passos da construção de um computador quântico foram dados a quase dez anos atrás (2011) e o projeto vem sendo aperfeiçoado continuamente. A Nasa e a empresa fabricante de aviões Lockhead tem computadores quânticos, com cerca de 15 milhões de dólares é possível comprar um computador quântico D-Wave. https://www.dwavesys.com. Uma das previsões que surgem de vez em quando é que os computadores quânticos podem acabar com os criptoativos. Depois de dez anos e com três projetos diferentes (D-Wave, IBM e Google) de computadores quânticos em operação ainda não vimos nada nesse sentido. A IBM está na 14.ª versão de computador quântico, sempre aumentando a capacidade. São dezenas de empresas e centenas de pessoas experimentando computador quântico da IBM num programa chamado de IBM Quantum Experience: https://www.ibm.com/quantum-computing/technology/experience/.

Por outro lado, também é importante lembrar que o Bitcoin não foi criado e largado ou abandonado. Existem pessoas que trabalham única e exclusivamente para manter o sistema operacional, confiável e ativo. Pessoas que trabalham por conta própria por ser um projeto de código aberto ou que são bancados por instituições como universidades. O principal instituto é a Fundação Bitcoin mas existem várias outras instituições, geralmente sim fins lucrativos, que colaboram. Se realmente for detectado algum risco para a rede estas pessoas e a comunidade como um todo vai se esforçar para não deixar isso acontecer. Vale lembrar que vários “bugs” já foram detectados, apontados e corrigidos ao longo do tempo. Suponhamos que você saiba que existe alguém mal-intencionado querendo te roubar. Você vai sentar e ficar esperando o roubo acontecer ou sabendo que isso vai acontecer vai tomar medidas para não ser roubado?

Bom já mataram o bitcoin tantas vezes que temos até um contador de mortes do bitcoin. Já são 379 anúncios de morte e segue contando… https://99bitcoins.com/bitcoin-obituaries/. Não sei qual das lendas é maior: a identidade do(s) criador(es) ou a morte da criação (bitcoin), mas ambos ainda são lendas urbanas, pelo menos por enquanto. Aliás, existe um ditado popular que diz mais ou menos o seguinte: “para morrer basta estar vivo”. Em outras palavras, sim o bitcoin pode morrer em algum momento, porque não? O bitcoin é criado, transferido e mantido no mundo digital. Estruturalmente falando depende de computadores e da conexão entre estes computadores.

Por outro lado, mesmo que o Bitcoin morra algum dia, concordo com o que Nassin Taleb escreveu sobre uma possível falha do Bitcoin no prefácio do livro “The Bitcoin Standard: The Decentralized Alternative” de Saifedean Ammous, prefácio que tem como título “Pode falhar mas agora sabemos como fazê-lo” de onde destaco o trecho abaixo (grifo nosso), disponível na íntegra em: https://medium.com/opacity/bitcoin-1537e616a074.

“Finally, Bitcoin will go through hick-ups (hiccups). It may fail; but then it will be easily reinvented as we now know how it works . In its present state, it may not be convenient for transactions, not good enough to buy your decaffeinated expresso macchiato at your local virtue-signaling coffee chain. It may be too volatile to be a currency, for now. But it is the first organic currency.”

“Por fim, o Bitcoin passará por soluços. Pode falhar; mas será facilmente reinventado, pois agora sabemos como funciona . Em seu estado atual, pode não ser conveniente para transações, não o suficiente para comprar seu expresso descafeinado macchiato na sua cadeia local de café com sinalização de virtude. Pode ser muito volátil para ser uma moeda, por enquanto. Mas é a primeira moeda orgânica.”

Me parece que a expressão orgânica no texto do Taleb indica algo que tem vida própria, não depende do estado para existir.

Concluindo, minha opinião é de que a curto e médio praz a tecnologia SBM não oferece riscos a rede Bitcoin. Até acho que existem riscos maiores em outras redes menores, que eventualmente estão mais expostas a ataques de atacantes com mais poder de computação, mas não acredito que computadores quânticos e tecnologia SBM sejam usados para atacá-los, pelo menos por enquanto. Essa é a minha visão de quem não entende nada de programação e tampouco de física.

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Aproveitando toda a informação gerada pelos “dois neurônios” do Cecilio, cujo texto - como sempre - vem recheado de informações e pesquisas, creio que a tecnologia Quântica, seja por hardware ou por software, em uma análise rasa, pretende acelerar a solução de problemas. Conforme foi abordado, o que torna mais difícil atacar a rede Bitcoin é a sua capacidade de se adaptar às novas condições computacionais (aumento da dificuldade), além, obviamente, de ser necessário adulterar toda uma sequência de blocos da Blockchain e ainda obter a confirmação dos mineradores. Por isso, em minha modesta opinião, o verdadeiro risco da Computação Quântica, porquanto pretende acelerar a obtenção de resultados, reside na tentativa de quebrar as senhas das contas. Isto vale não apenas para o Bitcoin, mas para qualquer criptoativo. Se você usa uma rede, qualquer que seja, super segura, repleta de mecanismos de proteção, adaptável, mas revela sua senha, será roubado no próximo nano segundo. Então, talvez o verdadeiro risco, não esteja em tentar “dobrar” a rede toda, mas em atacar seu ponto mais fraco, estável e bem definido - as senhas que protegem as contas. Ser inviável ou não quebrar uma senha digital depende exclusivamente da capacidade computacional. Se a computação quântica um dia oferecer uma capacidade de fazer operações “tendendo ao infinito” qualquer senha, com qualquer quantidade de bits, poderá ser quebrada em um tempo viável para que o atacante se aproveite dessa vulnerabilidade, o que certamente destruirá a credibilidade de qualquer rede, tanto do Bitcoin, quanto de todas as outras.

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A propósito do desenvolvimento da programação voltada para computadores quânticos, para não deixar outra gigante de fora, para ela o futuro é quântico:

https://news.microsoft.com/pt-br/tag/computacao-quantica/

https://news.microsoft.com/pt-br/o-futuro-e-quantico-microsoft-libera-preview-gratuito-kit-de-desenvolvimento-quantico/

Já no caso da IBM tem o Qiskit:

https://qiskit.org

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Lá na parte 1 eu postei um vídeo da cientista brasileira Gabriela Bailas sobre “fake News” envolvendo física quântica. Ela tratou do assunto porque é PhD (a sequência no ramo da pesquisa é graduação, mestrado, doutorado e pós doutorado ou PhD em inglês - Philosophic Doctor) em Física de Partículas obtido na França aos 25 ou 26 anos em 2017. A física quântica estuda partículas subatômicas entre outros tipos. Um assunto que ainda está em aberto e deve continuar pendente por bastante tempo é quem faz o melhor computador quântico. O debate mais recente envolveu a Google e a IBM, com a Google anunciando que seu computador é o melhor. Sobre isso vejamos o que diz a Gabriela Bailas, que saiu do interior do estado do Rio Grande do Sul para se tornar Doutora em física e hoje trabalha no Japão.

O Pedro Loos do canal Ciência Todo Dia acabou de publicar um vídeo sobre computadores quânticos lá no canal dele com boas explicações sobre o assunto: