I – Uma Série de Pistas - Duas Pistas Próximas
John Carreyrou sabia que existiam dezenas de possíveis candidatos citados desde que o Bitcoin foi lançado. O primeiro passo foi encontrar um jeito de dar uma boa peneirada para afunilar a pesquisa.
Um fato que chamou a atenção de John Carreyrou foi a mistura do inglês britânico com o americano nos e-mails e postagens assinados por Satoshi Nakamoto. Já tratamos deste aspecto em particular por aqui em outra postagem que discutiu a possibilidade de Satoshi ser um cidadão britânico. Um dos argumentos mais citados pelos defensores da tese que coloca Satoshi como britânico é a inclusão de uma manchete da edição impressa na Inglaterra do jornal The Times do dia 03/01/2009 que transcrevemos no original: “Chancellor on brink of second bailout for banks”, em tradução livre seria algo como “Ministro da Fazenda está prestes a salvar bancos pela segunda vez”.
Outro fator que a grande maioria dos curiosos a respeito da identidade de Satoshi concorda é a grande possibilidade Satoshi ser membro de um grupo de anarquistas formado no começo dos anos 90, os Cypherpunks. Como anarquistas (anti-governos) um dos principais, senão o principal objetivo do grupo era se proteger da vigilância dos governos e dos respectivos riscos inerentes ao fato de serem contra governos. A principal forma de comunicação desse grupo, lembrando que o grupo nasceu no início dos anos 90, era através de troca de e-mails que eram copiados para uma grande lista de destinatários que respondiam para todos. Era algo mais ou menos parecido com o que os atuais grupos de “zap” (Whatsapp) trocando mensagens criptografadas. Também já tratamos deste tema por aqui.
Quem usa dinheiro físico (ou vivo) representado por cédulas de papel impressas pela Casa da Moeda não faz a mínima ideia de onde ela veio e por quantas mãos vai circular ao longo do tempo. Dinheiro vivo basicamente não pode ser rastreado. Qualquer pagamento feito por meio de algum sistema digital deixa rastros, entre outros motivos porque os governos criam regras sobre guarda das movimentações feitas pelos clientes dos bancos, das empresas de cartões, etc. Um tema debatido dentro da comunidade dos Cypherpunks era a criação de uma forma de pagamento que não poderia ser rastreado tal como ocorre com o dinheiro físico. Como provável participante do grupo Satoshi teria criado uma lista apartada dentro do grupo principal que chamou de Cryptography list (lista ou grupo de criptografia). Ao menos duas pessoas desta lista específica supostamente eram conhecidas por Satoshi.
John Carreyrou examinou atentamente diversos textos atribuídos a Satoshi, principalmente os e-mails e criou uma lista de palavras e frases que chamaram sua atenção. Um exemplo é o uso da palavra tipicamente americana “dang” (usado para ofender sem ser muito pesado), uma espécie de palavrão suavizado que vem da palavra “damn” (droga, caramba). Outro uso curioso foi da palavra “backup” escrito junto e usado num texto como verbo. Como verbo a forma gramatical correta seria “back up” escrito separadamente. “Backup” escrito junto é usado como adjetivo ou substantivo. Com base neste tipo de detalhe e na lista de palavras pescadas nos textos pesquisados o jornalista concluiu que a escrita de Satoshi era uma estranha combinação de britânico da alta sociedade, caipira americano, nerd de computador e criptógrafo. A partir daí John Carreyrou cruzou as mais de cem palavras que tinha separado com postagens no antigo twitter, atual “X”. Certamente nem todos os supostos Satoshis tem conta no “X” e também não foi usado nenhum critério científico. Mesmo assim o cruzamento entre as palavras separadas por John Carreyrou e mensagens escritas por supostos Satoshis no “X” deu resultado, um usuário em especial usava quase todas as palavras listadas pelo jornalista: o usuário Adam Back.
Outros detalhes que aguçaram a curiosidade do jornalista sobre Adam Back: ele era britânico, era membro do grupo Cypherpunk e havia criado o Hashcash, que foi usado por Satoshi para criar o Bitcoin, ganhando inclusive citação do Satoshi no whitepaper do Bitcoin. Durante o rumoroso julgamento nos tribunais britânicos sobre a identidade de Satoshi onde o criptógrafo australiano Craig Wright alegava ser Satoshi um documento foi apresentado por Adam Back como prova, era um e-mail enviado pelo usuário Satoshi datado de agosto de 2008 para Adam Back, antes da publicação do whitepaper em 31/10/2008. Em tese este e-mail comprovaria que Adam e Satoshi não eram a mesma pessoa.
Para John Carreyrou, no entanto, Adam pode ter enviado o e-mail para si mesmo como uma espécie de cobertura para disfarçar sua identidade real.
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