Um País que não confia em si mesmo - Opinião: Lucas de Aragão

Deixamos abaixo link para um texto de Lucas de Aragão publicado no dia 20/04/2026 no site Brazil Journal:

Ainda dentro desse tema saiu um artigo falando sobre nós, os brasileiros. Cito uma frase do texto, além das reformas necessárias tais como a reforma política e a reforma tributária precisamos reformar os nossos valores. É um raciocínio feito olhando para dentro do universo de convivência de grande parte dos brasileiros que moram em condomínios. É nesse espaço que revelamos muitas faces do nosso modo de viver. Exemplos: trocar a NF por um desconto, parar em fila dupla, estacionar rapidinho na vaga do outro etc. Se a punição é baixa vale correr o risco.

O link para o texto completo é: https://oantagonista.com.br/ladooa/imoveis/o-condominio-e-o-espelho-do-pais-que-ninguem-quer-ver/

Em cima dos artigos acima tracei uma breve trajetória do mundo medieval até os tempos modernos falando um pouco sobre a questão da prevalência dos relacionamentos pessoais em detrimento do valor das instituições. As leis existem, no caso brasileiro aos montes, mas talvez a questão esteja na falta de confiança na capacidade das instituições imporem o cumprimento das regras, das normas e das leis com equilibrio, para todos e que a exceção não seja a regra. O mundo das exceções pode ser um caminho para que as sociedades relacionais prevaleçam sobre as sociedades institucionais.

Da Idade Média para a Idade Moderna

Foi mais ou menos por volta dos séculos XV e XVI que nasceu o que hoje é conhecido como mundo moderno. Vamos esclarecer que não estamos falando de modernidade no sentido tecnológico dos tempos atuais. Até então o mundo viveu o período conhecido como Idade Média. A Idade Média tinha como característica política a fragmentação do poder nas mãos dos senhores feudais dominando espaços territoriais. Existia certa correlação entre o tamanho do espaço dominado e o poder do senhor feudal. O processo de transição que separou o período medieval (Idade Média) da Idade Moderna foi marcado por fatores tais como a criação de exércitos permanentes, estruturação de um sistema de tributação, delimitação de fronteiras, unificação das leis dentro destas fronteiras e surgimento das burocracias estatais ou administrativas, tudo isso a partir de reinados ou monarquias que centralizaram o poder político e militar. O auge do absolutismo como forma de governo característico da Idade Moderna ocorreu na França com Luiz XIV e sua famosa frase “O Estado sou eu”. Outra característica da Idade Moderna foi a substituição dos senhores feudais com riqueza medida pela extensão das terras que dominavam por burgueses que se estabeleceram nas cidades exercendo atividades como comerciantes, profissionais liberais (médicos, advogados etc.) e produção manufatureira de ferramentas em geral, utensílios domésticos, armas, tapetes, velas, sabão, peças de porcelana, vidros etc.

Teocentrismo versus Antropocentrismo

Entre vários aspectos relacionados a essa transição da Idade Média para a Idade Moderna uma delas foi o surgimento do antropocentrismo em oposição ao teocentrismo. O teocentrismo era uma característica dos tempos medievais que basicamente considerava Deus como centro do universo, e sob esta ótica a fé amparava qualquer argumentação sobre todos os assuntos. Literalmente tudo poderia ser explicado ou justificado pela vontade divina. O antropocentrismo chegou trocando Deus pelo homem. A fé perdeu espaço para a racionalidade, razão e ciência passaram a ser argumentos para entender o mundo. O foco no ser humano marcou o surgimento de movimentos intelectuais e culturais em diversos campos do conhecimento tais como na arte (Leonardo da Vinci e Michelangelo), na literatura (Shakespeare e Camões) e na ciência (Copérnico, Galileu e Isaac Newton).

Estruturas Sociais Institucionais versus Estruturas Sociais Relacionais

Nos dias atuais a maneira como as sociedades se organizam e definem as regras básicas sobre a maneira como seus membros interagem não é um tema simples. Reconhecemos que é um tema que não dominamos, de maneira geral e bastante rasa pensamos que os países mais desenvolvidos estão assentados em estruturas institucionais mais consolidadas. Os indivíduos que compõe esse tipo de sociedade valorizam e respeitam as regras que organizam o modo de vida em grupo. Outro aspecto que caracteriza a maior parte deste tipo de grupo social é o sistema político e econômico marcadamente democrático e liberal. Não é uma regra absoluta, mas em geral os países mais desenvolvidos estão estruturados socialmente sob a forma institucional. Esta configuração que coloca as instituições pairando num nível de confiança acima das relações pessoais é mais recente, nasceu por volta do final do século XIX e se consolidou no século XX. No período inicial da Idade Moderna, aproximadamente entre os séculos XV e XVIII o regime político dominante era o absolutismo monárquico. Cabe ressaltar que estamos falando das relações interpessoais gerais entre os indivíduos de um grupo social.

Em países menos desenvolvidos, via de regra, as estruturas institucionais não inspiram o mesmo grau de confiança nos membros da sociedade. Em grande parte destas sociedades o sistema político e econômico tem características que se assemelham com o modelo democrático e liberal. As instituições que caracterizam uma organização social democrática estão presentes, todavia sua existência não inspira tanta confiança quando tenta organizar o modo de vida dos seus integrantes. Países menos desenvolvidos tendem a valorizar uma sociedade baseada nas relações interpessoais. Esse grau de confiança que rivaliza com a confiança que deveriam ter nas instituições avança para além do grupo social familiar e se estende para amigos próximos, colegas de trabalho, membros da mesma igreja, torcida organizada, etc. Os membros que integram as sociedades do tipo relacionais costumam enxergar as estruturas institucionais como agentes garantidores do status quo.

Conclusão

As sociedades amparadas em estruturas relacionais que estão presentes em muitos países menos desenvolvidos existem, entre outros motivos, justamente por causa de fatores como o que foi objeto do artigo de opinião do Lucas de Aragão. Com a devida licença, respeitosamente incluiríamos a questão da segurança pública no contexto do artigo. Quem melhora de vida se muda para um condomínio fechado com segurança vinte e quatro horas e compra carro blindado. Num grau maior talvez se mude para outro país, talvez escolhendo um local onde a sociedade está assentada com mais firmeza na institucionalidade.

A bem da verdade as estruturas sociais institucionais e relacionais não competem entre si. O que ocorre é um peso maior de um em relação a outro.

Instituições fortes geram estabilidade, respeito as regras e padrões uniformes que devem nortear a vida em sociedade. Não importa se um desconhecido ou alguém ilustre descumpriram uma determinada lei, ambos devem ser investigados, processados com direito a se defender e se for o caso, devem ser condenados e devem cumprir a pena imposta com base nas leis vigentes.

Instituições fracas geram instabilidade, as regras parecem valer mais para uns e menos para outros e com isso a vida em sociedade não tem como norte um padrão uniforme. Quem comete um crime leve pode ser investigado, processado, condenado e obrigado a cumprir pena enquanto outros que cometem crimes muito mais graves podem se escorar nos meandros do sistema para no final escaparem de uma condenação justa ou pagando uma pena muito leve em relação a infração cometida. É o mundo do “você sabe com quem está falando? ”.