Práxis a Paradise ou Silo (seriados) da vida real no Uruguai

Introdução

Em janeiro de 2025 estreou nos EUA no canal americano de streaming Hulu, uma empresa do grupo Disney, o seriado Paradise. O seriado pertence ao gênero drama político, ficção científica e suspense. A criação é de Dan Fogelman. Tanto a primeira como a segunda temporada que foi exibida no primeiro semestre de 2026 tem 8 episódios cada, e ainda teremos uma terceira temporada que deve encerrar a série.

O seriado começa aparentando ser mais um daqueles enredos envolvendo o assassinato do Presidente dos EUA. No final do primeiro episódio descobrimos que tudo está acontecendo num gigantesco abrigo subterrâneo secreto com objetivo de sobreviver a um Apocalipse global.
Outro seriado que tem “mais ou menos” a mesma pegada de sobrevivência pós Apocalipse é Silo, que estreou na Apple TV em 2023, teve a segunda temporada em 2024, a terceira foi exibida em 2026. Está previsto uma quarta e última temporada para 2027.

As quatro bases do interesse ou do receio dos EUA pelo apocalipse global

Não tenho pretensão de entrar fundo no fascínio que os americanos têm pelo Apocalipse global, até porque me faltam bases teóricas e práticas, conheço os meus limites. Para me ajudar é claro que perguntei para a IA do Google gastando alguns bons litros de água e energia. Em breve resumo do que a IA do Google me apresentou esse interesse está assentado em quatro bases:

1-Religiosa conjugada com o excepcionalismo americano – a base religiosa tem origem na própria fundação dos EUA a partir de grupos cristãos que em grande parte vieram da Europa fugindo de perseguições que estavam sofrendo por lá. Para quem é leigo nas questões religiosas o Apocalipse em outros termos representaria o fim do mundo. Essa espécie de “previsão do fim dos tempos” consta de um texto escrito pelo apóstolo João no fim do século I quando os romanos perseguiam os cristãos. O objetivo era dar esperança e coragem para os cristãos naquele momento em que estavam sendo perseguidos. Em termos metafóricos uma visão simbólica do texto remete a luta entre o bem (Deus) e o mal (besta). Aqui entra o excepcionalismo americano que é a crença de que os EUA é um país único cujo destino é liderar o mundo numa cruzada missionária. Entre outras críticas uma delas é que essa visão é ufanista ou fantasiosa.

2 - Mito da fronteira e a autossuficiência – a expansão americana para o Oeste foi feita praticamente sem ajuda do governo central. Os pioneiros se aventuravam amparados única e exclusivamente nas suas próprias forças físicas e mentais. Esse espírito gerou um modo de vida autossuficiente em regiões onde não seria possível contar com proteção ou segurança estatal. O caminho nesses ambientes hostis era estocar alimentos, armas e se possível construir um bunker. Desde os tempos do avanço dos pioneiros rumo ao Oeste existe em parte dos americanos uma certa visão individualista para não depender do estado. Um mundo apocalíptico remete aos tempos da exploração do Oeste onde cada um deve depender de si mesmo para proteger e alimentar sua família.

3 - Geopolítica e economia – até agora os EUA ocupam a posição de superpotência global tanto no sentido militar como econômico. Ao longo do tempo os EUA se comportaram como “xerifes” do mundo interferindo inclusive pela força bélica em outros países. Como superpotência global os EUA tem histórico de estarem presentes em várias regiões tensas do mundo, seja agindo diretamente ou indiretamente. Atualmente o conflito da vez é com o Irã. Via de regra a escolha de um lado cria incomodo no outro lado. E diante desse cenário os EUA vivem constantemente ansiosos temendo ataques terroristas ou até mesmo de outras potências globais. Até alguns anos atrás esse rival era a Rússia e atualmente são os Chineses.

4 - Hollywood, a indústria do entretenimento – os três pontos citados anteriormente se reúnem na indústria do cinema que acaba retro alimentando essa obsessão americana. São centenas de filmes e seriados retratando zumbis, vírus criados em laboratórios, guerras nucleares, invasões alienígenas e desastres naturais afetando ou atacando os EUA. O cinema gera em alguma medida algum receio no público e alimenta essa necessidade de sobreviver ao Apocalipse.

A empresa Práxis

Com sede em Nova Iorque nos EUA a Práxis nasceu em 2019, fundada por Dryden Brown, Chalie Callinan e David Weinreb e segundo The New York Times inicialmente teriam levantado quase 20 milhões de dólares junto a investidores. Uma das empresas apoiadoras do projeto seria a Pronomos Capital que teria ligação com Peter Thiel. Outros apoiadores seriam Joe Lonsdale que é cofundador da Palantir, Sam Bankman-Fried da Alameda Research, Winklevoss Capital dos irmãos Winklevoss e da Apollo Projects, empresa criada por Sam Altman. Como se nota, existem nomes conhecidos no grupo de apoiadores. Em 2022 a sede da empresa seria na cobertura de um prédio localizado no SoHo onde os funcionários moravam, trabalhavam e davam festas de arromba. Consta que em 2024 a Práxis estaria devendo aluguel do imóvel.

Um grande salto em termos financeiros aconteceu em 2024 quando a empresa GEM Digital (Global Emerging Markets Digital) teria aberto uma linha de crédito de mais de 500 milhões de dólares para financiar o projeto de construção da nação digital Práxis. O montante deve ser liberado na medida em que o projeto vai se desenvolvendo em conjunto com a emissão e venda de tokens. O projeto estima uma necessidade de cerca de 4 mil hectares para a construção de até mil residências do tipo modular. Entre os possíveis locais avaliados estavam os EUA evidentemente na Califórnia, Groelância, região do Mediterrâneo e por último o Uruguai, nosso vizinho aqui na América do Sul que foi o local escolhido para a construção da primeira cidade nação digital Práxis baseada em inteligência artificial. A estimativa inicial é a chegada dos primeiros moradores já em 2027.

Os termos utilizados para descrever essa cidade Práxis são espetaculosos. Alguns exemplos: “cidade insana, futurista espacial, no estilo Jetsons/pioneiros/anos 1950”, local para “elites tecnológicas”, “futurismo heroico”, “estética neo-Era Dourada”, “enclave tecno-utópico” e para alguns críticos “utopia libertária com regulação corporativa mínima”. Seria um lugar para os que querem viver num lugar sem supervisão regulatória ou controles financeiros, com prioridade para capital financeiro em detrimento da democracia e dos direitos humanos.

Aparentemente o projeto vai sair do papel afinal o dinheiro (financiamento) está disponível. O acordo não vinculante para a construção da cidade já foi assinado em setembro de 2026 tendo de um lado representantes da Práxis e do outro Eduardo Bastitta, um empresário e empreendedor argentino fundador da Plaza Logística, empresa com foco em infraestrutura e parques logísticos na Argentina.

Colonia del Sacramento

A primeira cidade Práxis deverá nascer em Colonia del Sacramento, uma cidade localizada no Uruguai com cerca de 25 mil habitantes, uma área entre 12 e 16ha é tombada pela Unesco sendo considerada Patrimônio Mundial da Unesco. Colonia del Sacramento foi fundada pelo então Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro cumprindo ordens da Coroa Portuguesa. Ao longo do tempo Espanhóis e Portugueses disputaram a região até que em 1828 o Uruguai se tornou independente. É um destino turístico muito visitado que fica entre Buenos Aires e Montevideo, respectivamente capital da Argentina e do Uruguai.

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