Maio É Um Mês Tradicionalmente Ruim Para O Investidor Em Bolsa

Nos últimos dez anos apenas uma vez a bolsa brasileira não fechou o mês de maio em queda. A exceção foi o último ano de 2019. Parte deste resultado pode ser atribuído para eventos políticos ou sociais. Olhando para os quatro últimos anos temos eventos que tiveram muita repercussão: 05/2016 - a então Presidente Dilma foi afastada do cargo por 180 dias pelo Senado tendo que entregar o posto para o vice Michel Temer de forma temporária, que depois se tornou definitiva; 05/2017 - vazou o áudio gravado pelo empresário Joesley Batista de uma conversa que tinha mantido com o então Presidente Michel Temer, que chegou a balançar mas não caiu, o que caiu mesmo foi a bolsa; 05/2018 - foi marcado por uma greve nacional dos caminhoneiros, principalmente os autônomos que praticamente parou o País por vários dias, gerando diversos problemas de abastecimento.

E você, neste mês de maio de 2020, está achando que o preço das ações neste momento está (muito) interessante e chegou a hora de “enricar”? Um dos erros de quem olha para a bolsa de valores é comparar diretamente o preço de uma ação neste exato momento com o preço desta ação em alguma data passada, por exemplo, em algum dia do mês de dezembro de 2019. Hipoteticamente, o preço de uma ação da empresa XYZ que estava custando R$ 40,00 em dezembro de 2019 e hoje está valendo R$ 10,00 não significa tanta coisa além do aspecto nominal. Pode ser que tenha ocorrido algum evento diretamente ligado ao negócio da empresa XYZ (exemplo: Odebrechet antes e após lava jato) ou seja resultado de algum evento em escala global (exemplo: antes e depois da chegada desta pandemia).


Fonte: https://www.infomoney.com.br/cotacoes/irb-brasil-irbr3/grafico/

Tecnicamente, uma das formas mais conhecidas e talvez mais usadas para avaliar se uma ação está cara ou barata é olhar o índice VPA - Valor Patrimonial da Ação (divide-se o patrimônio pela quantidade ações). Neste começo de maio de 2020, por exemplo, olhando apenas sob este ângulo duas empresas do mesmo segmento (bancário) o preço das ações do Banco do Brasil estão “baratas” e o preço das ações do Banco Itaú estão “caras”.


Fonte: https://www.fundamentus.com.br/index.php


Fonte: https://www.fundamentus.com.br/index.php

Em plena pandemia a bolsa de valores brasileira contabilizou nos primeiros meses de 2020 a entrada de cerca de 400 mil novos investidores. Esses dados foram apurados antes do corte de 0,75% na taxa selic que agora é de 3,0% ao ano. Não tenho intenção de incentivar ou de desestimular ninguém, mas espero que estes investidores que estão chegando tenham alguma ideia do mercado que estão frequentando.


Fonte: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/apesar-de-forte-queda-com-crise-do-coronavirus-bolsa-ganha-440-mil-novos-investidores-em-dois-meses/

Como contraponto a chegada destes milhares de novos investidores ao mundo da renda variável estamos vendo um grande investidor em bolsa quieto. Ele não está comprando, pelo contrário, Buffet vendeu todas as ações que tinha no portfólio de quatro grandes empresas aéreas americanas em plena pandemia, já com preços muito abaixo dos que havia pagado na compra. Estima-se que a venda das aéreas acrescentou alguns bilhões ao caixa da empresa de Buffet que agora beira os 140 bilhões de dólares. dependendo da cotação do dia, algo em torno de 760 bilhões de reais. Esta montanha de dólares não cresceu por acaso, desde 2018 Buffet tem sido comedido nas compras, mesmo neste momento de pandemia.


Fonte: https://br.financas.yahoo.com/noticias/warren-buffett-exits-airline-stocks-aal-ual-dal-luv-shares-fall-193916204.html

O ponto a ser destacado aqui é existem outras formas de comparação de preços, uma delas é comparar o preço de uma ação com o cenário econômico e as possíveis/eventuais perspectivas futuras de aspectos ligados ao negócio da empresa em questão. A explicação de Buffet, um tradicional investidor de longo prazo, para a venda das ações das empresas aéreas foi a incerteza quanto aos efeitos da crise e a certeza do impacto no setor aéreo num horizonte imprevisível. Buffet não só vendeu como assumiu o erro. Se Buffet erra quem não está sujeito a erros enquanto investidor? Ao comprar ações das empresas de transporte aéreo Buffet enxergava um mundo altamente conectado, com centenas de aviões decolando e pousando por minuto. Agora o cenário é outro agora e totalmente incerto no futuro. Eu me alinho aos que pensam no futuro como algo incerto e imprevisível. Essa incerteza é maior quanto mais se estende a linha do tempo. Mas como qualquer ser humano também durmo achando que vou acordar no dia seguinte e o microuniverso (casa, família, bairro, lojas, local de trabalho, etc.) que me cerca ainda vai estar por lá. A diferença entre uns e outros é o quanto você está preparado para eventuais surpresas que podem acontecer, principalmente a ocorrência de grandes eventos em escala global, que tem alcance para afetar o nosso microuniverso.

Talvez o mês de maio seja um momento para ficar quieto, dizem que bolsa de valores abre todos os dias úteis o ano todo e sempre tem ação se valorizando que vale a pena ser avaliada e talvez comprada. Também dizem que chegamos até aqui, entre outras coisas, por causa do medo que ajudou na sobrevivência ao invés da coragem. Existe uma enorme diferença entre comprar uma ação e ver o preço dela despencar e não comprar uma ação e ver o preço dela disparar. Machuca mais, sob o ponto de vista financeiro, comprar ações do IRB - Instituto de Resseguros do Brasil a 40 reais e ver o preço cair para menos de 10 reais em dois meses do que ver as ações da Magazine Luiza sair de 1 real para quase 700 reais em alguns anos. No primeiro caso você viu 40 reais se transformar em menos de 10 reais. No segundo caso os eventuais 40 reais continuam no seu bolso, se você não gastou em outra coisa. Nestes tempos estranhos e incertos pode ser mais importante sobreviver para viver o dia seguinte.

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A tradição foi quebrada e tivemos o melhor mês de maio desde 2009 (época da quebra dos bancos e da crise global no setor financeiro). No meio de uma grande crise sanitária e diante de um vírus ainda desconhecido, boa parte dos negócios em geral proibidos de abrirem suas portas e sem vacina (se for descoberta vai demorar para ficar disponível) e com previsões pessimistas de 10 entre 10 economistas, a bolsa de valores subiu incríveis 8,57% no último mês de maio. O citado mês de maio de 2009 entregou aos investidores uma subida de 12,49% segundo dados da Economatica. Enquanto dados do primeiro trimestre de 2020 das empresas ligadas ao setor aéreo, tais como Embraer com prejuízo de 1,28 bilhões de reais, Latam Global com prejuízo de 11,5 bilhões de reais e Azul com prejuízo de 6,1 bilhões de reais as ações destas empresas sobem na bolsa brasileira.
Enquanto gente como o investidor americano Warren Buffet vende todas as suas ações de companhias aéreas (empresas aéreas americanas, diga-se de passagem) por aqui dizem que boa parte dos novos investidores da bolsa brasileira, em sua maioria pessoas físicas que entraram nos últimos meses, está comprando com apetite. No dia 01/06/2020, por volta do meio dia, ações da Embraer, Azul e Gol subiam bastante ao lado da CVC cujo setor (turístico) também está sendo afetado de maneira pesada.


Pesquisa do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, órgão ligado ao Ministério da Economia projetava no mês de março que o próximo mês de abril os índice de atividade econômica no setor de transportes em geral cairia mais de 50% (últimos dados disponíveis). O que essa gente que acabou de descobrir que a bolsa de valores existe (desde o século 19 no Brasil) colocou seu dinheiro na renda fixa (poupança, cdb, fundos DI dos bancões, etc.) está vendo que investidores calejados não estão vendo? Eu não torço contra e se eles estiverem certos ganharão dinheiro e a nossa economia estará em franca recuperação. Espero que ao invés de investir esta gente não esteja desinvestindo e saia machucada, com menos ou muito menos do que entrou.

Fonte: https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/2020/05/