Bitcoin é Dinheiro?


#1

Para responder essa pergunta, devemos fazer outra mais importante/interessante: O que é Dinheiro?

Vamos pensar em um problema prático do início das nossas relações de troca:

  • Janete tem uma plantação de Mandioca e deseja beber Caldo de Cana;
  • Sr. Kaiser cultiva Cana de Açúcar, mas o Sr. Kaiser não deseja Mandioca, na verdade ele está construindo sua casa e precisa de um marceneiro para ajudá-lo;
  • Sr. Carvalho é marceneiro e quer Mandioca;
  • Para conseguir as Canas do Sr. Kaiser, Janete paga com Mandiocas o serviço de marcenaria do Sr. Carvalho, para que esse construa a casa do Sr. Kaiser.

Com esse exemplo entendemos que em vez de realizar uma única negociação, são necessárias duas ou mais, além disso que poderia ser difícil precificar o valor de algum bem/serviço, pois não existia uma unidade de conta de referência (Quantas horas de marcenaria valem uma Cana de Açúcar ou Mandioca?).

A adoção de um meio de troca de uso comum resolve esse problema.

Para esse meio de troca ser aceito, é necessário que ele seja escasso, ou seja, de difícil acesso.
Não daria para usar folhas de bananeira, pois qualquer um poderia imprimir retirar das arvores e usar como meio de troca, mesmo não tenha produzido nenhum bem/serviço.

Aliás, a confiança nesse meio de troca por ser escasso e de difícil obtenção, mantendo assim o valor atribuído à ele é o que chamamos de Lastro.

O uso de um meio de troca em comum (Dinheiro), também permitiu que os indivíduos pudessem se especializar naquilo em que realmente fossem bons:

— “Por exemplo, fabricar pregos — , você poderia agora ganhar a vida apenas fabricando pregos. Sem o dinheiro, alguém que passou o dia inteiro fabricando pregos teria de encontrar (a) alguém com comida em excesso que quisesse pregos, (b) alguém com abrigo sobrando que quisesse pregos, © alguém com excesso de roupas que também quisesse pregos naquele momento, e por aí vai.” (Peter Schiff).

Ao longo da história da humanidade, diversos materiais foram usados como forma de dinheiro por possuírem propriedades intrínsecas como entesouramento, difícil falsificação, escassez, divisibilidade, facilidade de transporte.
Exemplo: Gado, Sal, Ouro, Pau-Brasil, Papel Moeda até chegarmos nas nossas atuais Moedas Fiduciárias (Real, Dólar, Euro e etc).

Entendendo que Dinheiro é qualquer Bem que possa ser usado como meio de troca, podemos responder a pergunta, Bitcoin é Dinheiro?
Sim, Bitcoin é Dinheiro, pois suas propriedades intrínsecas permitem que ele seja usado como tal:

  • Infinitamente Divisível;
  • Genuinamente Escasso;
  • Matematicamente impossível de ser falsificado;
  • Facilmente armazenado, transportado e transferido;
  • Infinitamente Durável;

A internet foi uma evolução natural da forma de como nos comunicamos, o Bitcoin é a evolução natural do dinheiro e como podemos otimizar nossas relações de trocas.


#2

Olá Criptomaníacos,
SilvioCarlos,
O debate sobre bitcoin ser ou não dinheiro é desafiador. Inicialmente eu pensava desta forma, ou seja, que bitcoin tem características iguais aos das moedas “oficiais”. Com o passar do tempo passei a considerar a possibilidade do bitcoin ser mais do que dinheiro digital, como o definiu o seu próprio criador no White Paper do bitcoin. Hoje eu penso que o bitcoin tem tudo para ser o dinheiro da internet, mas também avalio um potencial para que ele se torne um ativo financeiro. Neste sentido faço distinção entre uma moeda “oficial” (exemplo = Real, como meio de pagamento) e um ativo financeiro (CDB, como instrumento de renda e reserva de valor). O bitcoin pode ser usado como meio de pagamento ou como ativo financeiro. O tempo dirá qual será o melhor destino. Ou melhor, o mercado vai endereçar para onde irá o bitcoin.
Mas, de qualquer forma, para não ficar somente na teoria, vamos ao mundo real. No aeroporto internacional de Brisbane (Austrália) já é possível comprar Bitcoin num caixa eletrônico da Travelbybit que foi recém-inaugurado por lá.


Aliás, quem tem bitcoin não passa fome nem dorme ao relento conforme lista de empresas que aceitam bitcoin por lá.

Abraço.

#3

Boa @Cecilio!
Concordo com você.

Só gostaria de pontuar, que quando uso a palavra Dinheiro, me refiro à forma como representamos riqueza/valor.
O que temos hoje são diversas formas de Dinheiro: Moedas Fiduciárias, Ativos Financeiros, Pontos em Programas de Recompensa, Ouro, Figurinha Cromo do Álbum da Copa.

O Bitcoin é só mais uma forma de Dinheiro que criamos, mas é também a melhor forma de Dinheiro que já criamos.


#4

Silvio,
Estava pensando nisso ao escrever uma resposta no tópico sobre o BRLT (Tether Real) aqui no fórum!. Além dos exemplos que você citou ainda temos os Tickets (refeição e alimentação), Vales (transporte e combustível) e houve um tempo aqui em SP que até balas (doces, é bom ressaltar) foram usadas como troco devido a falta das moedas de metal e quando os tickets eram emitidos em papel a diferença a maior era devolvido em contra-vale. São formas diferentes de pagamento que não são exatamente dinheiro.
Valeu e abraço.


#5

Olá Hashmaníacos!
Foi publicado hoje um artigo interessante do jornalista Simon Chandler no site Cointelegraph. O título é “Dinheiro ou Ativo como os governos mundiais definem as criptomoedas”, O artigo foi originalmente escrito em inglês e faz uma boa análise da situação nos principais países do mundo.

A versão em português do mesmo artigo:


#6

Dando continuidade ao debate iniciado neste tópico tomo a liberdade de trazer a última visão do Fernando Ulrich sobre este tema. É claro que não tenho pretensão de retransmitir as idéias ou teses do Fernando e nem tampouco transcrever ou traduzir na íntegra seu texto original. Recomendo a todos que leiam os textos originais para que cada um tenha seu próprio entendimento sobre a matéria. Meu texto traz minha modesta reflexão pessoal sobre o tema e também serve como aprendizado (escrever me ajuda a entender melhor). Numa série de artigos publicados originalmente em inglês no site Medium no início de agosto/18 Fernando termina definindo bitcoin como ativo final. Ao invés de escolher um lado ou outro (meio de pagamento ou reserva de valor) Fernando expõe outro ponto de vista que engloba/junta os dois lados. Sem desconsiderar as dificuldades existentes para que seja amplamente aceito/utilizado como meio de pagamento (a famosa ideia de pagar um cafezinho com bitcoin) Fernando expõe a tese de que o bitcoin se tornará meio de pagamento universalmente aceito (em qualquer lugar do mundo) na medida em que se fortalecer como SoV (Store of Value - Reserva de Valor). Na minha leitura desta tese me parece que Fernando endereça a resposta a uma pergunta que não quer calar. Bitcoin é dinheiro? A linha de pensamento trazida nos textos publicados me parece clara no sentido de responder que sim, bitcoin é dinheiro. E o argumento trazido no texto está ancorado na ideia de que o dinheiro deve representar/significar valor para quem o possui. Se representa valor estimula a sua posse, guarda e utilização/aceitação como meio de pagamento (porque outros aceitarão e inclusive passarão a exigir o bitcoin pela percepção do seu valor. Ou seja, a sua aceitação como meio de pagamento está ligada/vinculada a ideia de valor. Quanto mais valor tiver mais aceitação deverá ter pelos agentes econômicos que entenderão a viabilidade e vantagem de aceitá-lo nas suas transações diárias. Certamente Fernando conhece bem as dificuldades existentes na adoção maciça do bitcoin como meio de pagamento diretamente na rede mas implementações como a lightning network podem facilitar esse caminho. Com relação a outras criptomoedas, algumas criadas unicamente para serem usadas como meio de pagamento a questão central que se coloca é a definição do seu valor. Somente quem pode fazer isso é o próprio mercado (como ecossistema) e não seus criadores, exchanges, entusiastas, etc. Neste ponto o bitcoin domina o cenário. Em 11/09/18 a dominância do bitcoin segundo o site coinmarketcap é de pouco mais de 56% em relação a outras 1929 criptomoedas avaliadas. Mas porque bitcoin será o ativo final, posicionando-se acima do ouro que hoje ocupa essa posição máxima no mundo financeiro? A história indica que uma moeda tende a dominar (hoje é o Dólar americano) assim como um protocolo tende a dominar no campo da tecnologia (o IP na internet). O bitcoin tem estas duas possibilidades (se tornar moeda dominante, universalmente aceita e um protocolo que vem sendo testado sem parar por um minuto sequer desde janeiro de 2009. Fernando conclui questionando se é possível fazer um “fork” do ouro (metal) e como seria o resultado disso. E se houve esse “fork” que deu origem ao bitcoin? O que nasceu desse “fork”, além das sempre citadas semelhanças com o ouro físico são vantagens como menor custo para manuseio e transporte/segurança mantendo todavia todas as principais características que tornaram o ouro até o momento o principal ativo usado/aceito como reserva de valor. Minha conclusão pessoal, Fernando reinventou a roda, quanto mais essa roda girar, movida pela ideia de valor vinculado ao bitcoin mais ele se fortalecerá como reserva de valor e por consequência passará a ser aceito universalmente como meio de pagamento. Ao juntar/somar no bitcoin duas propriedades aparentemente distintas Fernando simplifica e endereça uma discussão que se arrasta desde o seu nascimento e devolve a questão ao título do “paper” do bitcoin: “A peer to peer electronic cash system” que no fundo me parece ser o objetivo primário do bitcoin, ser um dinheiro universalmente aceito que não depende de governos e bancos (centrais ou comerciais) mas que ao invés de extinguir as instituições públicas ou privadas servirá para fortalecê-las.
Texto original:


Video da palestra feita no Blockchain Day do Insper sobre o mesmo assunto: