De vez em quando a gente fala de impostos. Já abordamos uma espécie de “paraiso” fiscal dentro dos EUA, que é o estado de Delaware, o segundo menor estado em área, o sexto menos populoso, localizado na costa do Atlântico e na região nordeste dos EUA, que não fica muito longe da capital Washington DC. De acordo com dados do site do próprio governo de Delaware o estado é a sede de mais de 2.1 milhões de empresas ativas com uma população na casa de 1 milhão de habitantes. Neste grupo estão mais de dois terços das grandes empresas ranqueadas na lista Fortune 500, como por exemplo Amazon, Facebook e Apple. A sede administrativa com milhares de colaboradores pode estar numa grande cidade de qualquer outro estado, mas todas as gigantes tem um endereço em comum, o número 1.209 North Orange Street, Wilmington, Delaware.
Pão e Circo desde sempre
Políticos de plantão sempre estão pensando em formas de cobrar mais impostos, aparentemente pelos motivos mais “nobres” que existem. Se nós, pobres mortais e distantes da categoria dos bilionários detentores de bilhões de reais ou dólares não gostamos de ver nosso dinheiro sendo “torrado” pelos governantes sem a devida eficácia imagine o que devem pensar esses bilionários. Pois é, acho que sei o que cada um pensa com exceção dos políticos que devem achar que estão certos, pelo menos temos isso em comum com os grandes bilionários. Não gostamos de ver o nosso suado dinheiro sendo arrecadado em níveis cada vez mais altos para ser direcionado para “causas” que os políticos acham que é melhor para eles continuarem se reelegendo e não para as reais e verdadeiras necessidades da população em geral. Isso ocorre na maioria das vezes. Segundo uma notícia do Uol Prime assinado por Tiago Mali cidades brasileiras com as contas no vermelho (nenhuma novidade) torraram mais de 2 bilhões de reais em shows. O tempo passa, os governos passam, as pessoas passam, mas desde os imperadores romanos “panem et circenses” ou “Pão e Circo” atribuído ao poeta romano Juvenal (c.55 – 140 d.C) cunhou esta frase como crítica ao modo de governar fornecendo comida e entretenimento gratuito para distrair a população e evitar revoltas.
A revoada dos bilionários californianos
Saiu no Infomoney um artigo traduzido para o português de um artigo publicado originalmente em inglês no site da revista Fortune assinado por Marco Quiroz-Gutierrez postado em 02 de abril de 2026. O título original é “The tax escape map: Billionaires are bolting for Florida from the West Coast and taking billions in tax revenue with them”.O título em português é “Fuga de impostos: Bilionários migram para a Flórida e levam fortunas em receita”. O link para o texto completo nas duas versões (inglês e português), como sempre, pode ser conferido no final da postagem, além de outros links que ajudaram na elaboração desta postagem.
Existe uma proposta de Lei do Imposto sobre Bilionários da Califórnia que caso seja aprovada morderia os bolsos dos bilionários residentes na Califórnia numa taxa única de 5% sobre todo o seu patrimônio. A estimativa é que o projeto atingiria cerca de 200 cidadãos moradores da Califórnia com um potencial de arrecadar cerca de 100 bilhões de dólares, ou nos dias atuais perto dos 500 bilhões de reais. Os motivos nobres para os quais estes bilhões seriam destinados são: financiamento da saúde, educação e assistência familiar. Para ser aprovado o primeiro passo do projeto é obter no mínimo 875 mil assinaturas de residentes no estado até junho deste ano. O passo seguinte para aprovação do projeto é ir à votação bastando ter a maioria simples dos votos dos eleitores (lembrando que nos EUA o voto não é obrigatório) para o projeto ser aprovado (é tipo um plebiscito). Apenas para registrar, o Vale do Silício que é o berço das Big Techs (Alphabet/Google, Apple, Meta) e outras grandes como HP/Oracle, Nvidia e Netflix fica na Califórnia. Se o Bitcoin não nasceu ali certamente foi gestado por alguém que estava nas redondezas do Vale do Silício, pela época e forma como nasceu não tem como ter surgido em outro local.
Se por um lado os políticos se esforçam para serem eficientes no processo de arrecadar dinheiro cobrando impostos das formas mais criativas possíveis, do outro lado, os pagadores também fazem seus movimentos para tentar pagar menos. Não estamos sugerindo que alguém sonegue impostos, pague os impostos devidos corretamente para não ter problemas e afogue a ira no boteco mais próximo. Os bilionários que estavam residindo na Califórnia e viram a lei que os afetaria diretamente sendo criada e colocada em processo de aprovação não foram ao boteco mais próximo. Talvez por causa disso eles sejam bilionários. Como aconteceu em outros casos parecidos, fizeram o que o dinheiro permite, compraram mansões em outro local onde não há perspectiva de incidência deste tipo de mordida sobre o patrimônio deles. Em outros termos, fizeram as malas e puxaram o carro murchando a perspectiva da meta de arrecadação de 100 bilhões numa primeira estimativa para a casa dos 75 bilhões de dólares. Convenhamos que ainda é bastante dinheiro nas mãos dos políticos.
O Paraíso na Terra, para alguns
Se tem um local nos EUA que os brasileiros já ouviram falar em algum momento da vida e talvez mais do que Nova Iorque, considerada como capital do mundo, este lugar é a Flórida, que deve ser o lugar mais atraente, pelo menos no mundo dos vivos. Quem nunca sonhou com uma visita aos parques temáticos da Disney, Universal Orlando Resort, Kennedy Space Center ou encher as malas com compras nos Outlets em Orlando ou Miami. Agora quem for para lá ou estiver morando por lá corre o risco de trombar com donos de verdadeiras fortunas, daqueles que dão inveja, principalmente aos políticos de plantão.
Mark Zuckerberg (Meta) aparentemente comprou uma mansão pagando 170 milhões de dólares perto de Miami Beach, numa ilha conhecida como Indian Creek, ocupada por super ricos. O local é conhecido como bunker dos bilionários e tem apenas 41 moradores, um deles é Jeff Bezos (Amazon) que está construindo a sua pequena casinha por ali num terreno que agrupou três propriedades que tem valor total estimado na casa dos 230 milhões de dólares. Larry Ellison (Oracle) transformou uma propriedade no condado de Palm Beach estimado em cerca de 277 milhões de dólares em residência oficial no início deste ano, tornando-se vizinho de Donald Trump e da sua Mar-a-Lago. Larry Page (Google) comprou várias propriedades que totalizam mais de 180 milhões de dólares na Flórida. As compras mais recentes foram de duas propriedades vizinhas entre dezembro/25 e janeiro/25 que juntas totalizam mais de 172 milhões de dólares. Sergey Brin (Google) é mais modesto, mas também garantiu um pedacinho da terra do sol, comprou uma propriedade perto de Miami Beach pagando cerca de 51 milhões de dólares. Ken Griffin (Citadel) comprou propriedades na Flórida nos últimos dez anos. Seu complexo residencial à beira mar em Palm Beach consumiu perto de 450 milhões de dólares com 4.600 metros quadrados. Além das malas e móveis Griffin transferiu a sede da sua empresa comprando um prédio de 54 andares para instalar a sede em Miami ao custo estimado de 2.5 bilhões de dólares. Peter Thiel (Palantir) com quem compartilho modestamente o gosto por obras de Isaac Asimov também se mudou para a Flórida com malas, móveis e escritório transferindo a sede da Palantir para o estado do sol. Howard Schultz (o cara que fez a Starbucks ser o que é) não veio da Califórnia, mudou-se de Seattle onde morou por 44 anos para uma cobertura em Surfside, localizado ao norte de Miami Beach.
Conclusão
Nos EUA boa parte da taxação é definida pelos próprios estados e por causa disso o morador de um estado pode fazer as malas e ir para outro estado caso não queira se submeter aos impostos de um estado. Em outros países, como é o caso do Brasil, a saída para quem não quer pagar os impostos nos níveis em que estão sendo cobrados é sair do país. Não estamos sugerindo isso, que fique bem claro, cada um deve saber para onde aponta seu destino. A taxação de grandes fortunas costuma aparecer na mesa de tempos em tempos aqui no Brasil. Em nossa modesta opinião parece aquele tipo de solução simples para problemas complexos. Donos de grandes fortunas tem todos os tipos de assessoria especializada que ajudam na escolha do melhor domicílio fiscal, seja aqui no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo. Pensamos que é uma ilusão achar que donos de grandes fortunas ficarão sentados esperando alegremente pela mordida do leão. Parece o clássico tiro no pé, querem trocar duas refeições diárias por um grande banquete para depois ficar com a despensa mais vazia do que estava antes. Se eventualmente for decidido a taxação de grandes fortunas, pode ocorrer uma revoada de grandes bilionários, os eventuais impostos que eles estavam pagando por aqui passarão a ser pagos em boa medida nos locais eles vão se instalar. Como citamos antes, pode ser o clássico tiro no pé, otimismo exagerado na arrecadação da receita sem a devida avaliação dos efeitos.
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